Chapter 2012 – Act 01, Page 11

O tempo passa de forma irregular, fazendo os brancos surgirem no alto da cabeça de uma jovem senhora, e essa chora por sua vida derramada no deleite de um conceito há muito não usado. A chamam de Puta, Biscate e até de Madalena, somente porque a mesma se utiliza do corpo para gerar seu sustento, proporcionando prazer aqueles que a procuram. Seu pranto é contido, pois não cabe à uma dama de vermelho ser vista daquela maneira.

Na clausura de seu ser, ímpio e libidinoso, ela mescla em meio a sociedade de seu convívio, e não procura outro lugar para seus dias passar, pois iriam caçoá-la da mesma maneira que as cortesãs fazem. Não importa o lugar, as vestes e nem mesmo a profissão, ela sabia que era mulher e iria mostrar ao mundo o poder que somente as mulheres possuem.

Muitos nomes ela teve, mas ninguém lhe conhecia. Moça versada nas artes do amor, nas magias do sexo, nos encantos da carne e nas pragas do mundo. Ela sabia que poderia ter qualquer homem que desejasse, mas sabia também que não poderia tê-los para sempre, pois estaria ferindo o direito de escolha daquele pobre diabo. Via a chuva caindo lá fora, sentia o frio da água esfriar-lhe os osso.

O tempo passa rápido pela fresta aberta em seu peito, vê a vida com um grão de areia em uma grande ampulheta. Hoje, ela sabe que ela é mulher feita, senhora de si e seu destino, sabe também que tudo que passou em sua vida, serviu-lhe de lição ante os presságios negros que lhe sondavam. Lembra-se que por muitas vezes cogitou entregar-se aos leões famintos para amenizar a dor e a vergonha que carregava em seu peito, ela fora marcada um dia, e essa marca ela carregará até o fim de seus dias.

Alegro-me a lembrar que fora com ela que aprendi que “pessoas são como as safras, algumas amadurecem por si só, enquanto outras apodrecem por culpa daqueles que as cercam”. Assim acredito e tomo como verdade, e em verdade vos digo que não deveis julgar pela aparência, pois nem sempre tudo que parece ser, é. Isso já nos é claro desde muito antes, naquela saudosa canção de Vinícius e Baden, entoada pela linda voz de Elis, “O homem que diz dou, não dá; Porque quem dá mesmo não diz. O homem que diz vou, não vai; Porque quando foi já não quis. Homem que diz sou, não é; Quem é mesmo é não sou. O homem que diz tô, não tá; Porque ninguém tá quando quer”.

Sempre ei de lembrá-la, com seu sorriso jovial no rosto cansado, sua forma doce de contar as mais lindas histórias, e seu jeito de ser. Eras tão elegante e sofisticada, que de nada adiantou aquelas injúrias proclamadas contra ela nos tempos de sua juventude, ela sim era mulher de verdade. Alguns dizem que apenas por ser mulher, já és o mal personificado, mas não creio nisso, pois toda mulher é capaz de proezas que até mesmo aqueles que se dizem entes de ‘Deus’ não seriam capazes de realizar com tal perspicácia.

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