Chapter 2013 – Act 07, Page 22

Noite na agência com pizza e coca, há quanto tempo mesmo isso não acontecia? Uhm, deixe-me ver, há muito tempo pelo que me lembro, desde que mudei de agência. Nada melhor do que trabalhar com o que amamos, o que são algumas horas a mais desenvolvendo um projeto que será um verdadeiro sucesso e tenho a certeza de que ganharemos mais uma concorrência, com o conceito bem amarrado e uma arte muito bem elaborada, não há como falhar.

E, falando em falhas, fico feliz que tu tenha aprendido com as tuas, isso me anima em continuar acreditando no futuro, afinal, relacionamento é feito com dois e para dois, seria mais fácil abrir mão e desencanar, como fiz com muitos outros que passaram, mas como acabo de dizer, foram muitos outros quaisquer que passaram, ninguém de muita importância ou moral, diferente de ti. Tu tens se mostrado verdadeiramente o que sempre foi, desde quando nos conhecemos, há muitos anos atrás. E tenho certeza meu paladino, que provavelmente tu nem se lembre, pois sua memória ainda não foi liberada, mas enfim, isso é assunto para outra página. Agora o que mais quero é a minha cama quente, pois hoje a noite será fria, e eu não o terei entre os meus braços para me aquecer.

Sobre as sombras …

Eis que pela primeira vez tu poderás ver uma pequena sala do meu castelo de pedras, sombrio e gelado, que ainda existe em alguma parte da edificação do meu ser. Tal castelo hoje está parcialmente em ruínas, não deixo que ninguém caminhe pela ala Leste, pois pode se perder entre os labirintos da minha mente efêmera e insana, por entre as pedras, salas, sombras e, talvez, morrer congelado agonizando em algum canto esquecido. Um dia deixei que os ventos do Sul entrassem, os deixei varrer a escuridão fria para longe, e, só então que do topo da torre Norte, vi o Sol frio ao longe, frio e tão forte quanto a escuridão que um dia eu nutri, e descobri que viver a morte é uma experiência incrível. Sim, vivi a morte, pois estava morto por dentro.

A escuridão me cercava por completo, e hoje caminho por ela sem medos e sem receio, pois eu também sou a escuridão. Como dizia o sábio mago meia-noite, “luzes e sombras são facetas de um mesmo princípio“, por isso, mantenho intacta a parte Leste do meu castelo, não movi uma pedra depois que os ventos do Sul a destruíram, pois sei que essa sombra faz parte do meu ser, do meu caráter e da minha construção moral. Oras, sou senhor e senhora do meu corpo e mente, sou senhor e senhora da minha magia e meu poder, sou senhor e senhora das luzes e das sombras, definitivamente sou senhor da Luz, e senhora das Sombras.

Por muito tempo vivi na escuridão, sem sentir o calor do Sol, nutrindo apenas os desejos mais nefastos da minha mente, mas mesmo assim seguindo a risca a maior lei universal, a lei Tríplice. Caminhava sozinho por entre as passagens do meu castelo, seguro entre suas paredes de pedras frias, ouvindo meus passos ecoando ao longo do caminho, queria ter alguém ali para compartilhar comigo um sorriso, um momento único, uma troca de carícias e carinho, queria ter alguém que não tivesse medo da minha escuridão provocadora, de tanto tempo no escuro, esqueci como era forte a luz da chama de uma vela, meus olhos se acostumaram com o escuro, meus pés se encontravam em qualquer caminho. Não ousava eu sair da fortaleza do castelo, pois sabia que existiam seres estranhos e perigosos porta afora. Sempre quis caminhar por entre as pedras do jardim envolto numa eterna neblina, caminhar por entre as grandes árvores do bosque perto do lago, que sempre foi denso e me trouxe pânico, pois sabia que suas águas eram calmas à beira da praia, mas sua imensidão desaguava no mar revolto.

Passei tantos anos assim, que alguma coisa de bom havia de surgir desse tempo sozinho no escuro, nunca estive perdido dentro do meu castelo, mas sabia que estava prestes a perder minha consciência em breve, deveria fazer algo para mudar essa panorama, algo que me resgatasse de mim mesmo. As minhas sombras nunca me imbuíram medo, muito pelo contrário, elas sempre me fortaleceram, mas eu estava começando a me perder, perder a noção da realidade, perder o vínculo com o mundo externo e me trancar para sempre no meu castelo frio, sem poder sair para o jardim, por receio das forças estranhas que se encontravam ali. Passei todos os dias a me olhar no espelho, no escuro não podia ver a minha forma mundana, mas podia ver minha força, um roxo cintilante, frio e sóbrio, era refletido sobre mim, algo que me encantava e eis que passei a me perguntar “quem sou eu“, “o que quero para mim“, “o que estou fazendo aqui“, “o que me move por entre as sombras“, “porque tudo isso“. Enquanto isso, no mundo exterior, as pessoas me viam como eu me projetava à elas, firme, sóbrio, distante, sábio e sombrio. Era divertido ver estampado no rosto das pessoas o misto de medo e respeito, quando minha voz soava como trovão no ar, eu tinha o respeito de todos e sua atenção também, com essa edificação de postura, hoje sou respeitado e minha voz tem força moral entre seus ouvidos surdos, graças às sombras que me cercaram.

De volta ao escuro do meu castelo, sentado diante do espelho, olhei novamente para mim e me questionei mais uma vez, até que tudo começara a fazer sentido, as vozes cessaram, as visões pararam e tudo ficou calmo e silencioso, não estava mais dentre os vivos, não estava mais dentro de mim mesmo, e descobri que estava tendo ajuda para me encontrar novamente dentro da escuridão. A deusa me resgatou de mim mesmo, me mostrou as cores do mundo em seu ventre, me acendeu a memória do meu ser, me fez compreender meu espírito, e me disse em alto e bom som que “tu só poderás ser ajudado, quando procurar ajuda“. Despertei. Com medo, frio, pânico e desespero, e então meu ser se dividiu, mente e corpo separados, a mente compreendia tudo e sabia que aquilo fora bom e que a Deusa havia vindo despertá-la, o corpo sentia o medo da nova experiência, da nova energia, da nova sensação, tinha medo pois havia sido carregado para fora da sua fortaleza de pedra e sombras. A dualidade começou a se fazer presente em mim, mente e corpo começaram duelar e se exprimirem de forma individualista e coletiva, esta fora a pior parte, o descobrimento do meu ser.