Conquistando as alas

Juntos, num só espaço atemporal e sem forma humana, mas havíamos nos fundido de forma tão especial, que ficou impresso em mim a real razão da vida, tão cheio de luz, sabedoria, conhecimento, magia e poder. Minha Mente tão unida e comigo, que realmente conseguimos ser um único ser, de memória intrínseca, de ações unânimes, de voz triunfante, armados para a batalha de intelecto com as melhores armas, voz, coração e cérebro. Numa noite escura, saímos do nosso mundo particular, não havia nada do lado de fora da sala, apenas a habitual escuridão do castelo, e o frio que me congelava por inteiro, um frio que mistificava o medo e o desespero, confesso que tive vontade de voltar pra sala e me trancar ali por mais algum tempo, mas minha Mente me forçou a continuar, nos guiando pela escuridão do castelo com tanta luz nos circulando, eu mal podia enxergar adiante, apenas me movia por instinto.
Passamos noites e dias caminhando pela escuridão, vasculhando cada sala, cada ala, cada fresta, e nenhum sinal do Corpo. Varremos as alas Oeste, Norte e Sul, saudando todos os guardiões que se estabeleceram ali, compilamos a sabedoria e a força do Ar, da Terra e do Fogo, e agora rumávamos ao encontro do guardião da torre Leste, senhor da sabedoria e força da Água. O mais volátil dos elementos, ela que é o ventre vivo da mãe, ela que gera a vida e regenera tudo, ela que alimenta e nutre, ela quem cuida e protege, ela que leva também a destruição, ela que tem vida e vontade própria, ela que é viva e temperamental. Caminhamos e chegamos, à entrada da ala Leste, sombria e temerosa, pela primeira vez na vida tive medo de adentrá-la, pela primeira vez tive medo daquilo que poderia me aguardar no mais profundo da escuridão do meu ser, do meu castelo, da minha vida, o escuro me olhava e sentia seu ódio de ter sido deixado de lado por anos, respirei fundo e entrei, já não mais podia enxergar na escuridão, não sabia mais por onde caminhar, e tão pouco conseguia voltar agora, me senti perdido e sozinho por entre as sombras e névoa, me senti perdido por entre meu próprio mundo.
Caminhando sem rumo, sem destino e sem saber por onde pisar, cheguei a conclusão de que nada adiantava tentar fugir de mim mesmo, descobri que havia andado muito e não tinha saído do lugar, que apenas caminhava em círculos por entre as lápides que surgiam do chão, tentava olhar pelas altas janelas, e nada conseguia ver do lado de fora, então desci às masmorras. O pânico me assolava e eu não encontrava mais sentido para estar ali, não sabia o quê ou quem procurava, chorei pela ignorância, chorei por ter esquecido tudo, por estar perdido, por ter sido extremamente ignorante, chorei por estar vivo. Nunca, em toda minha vida, desejei tanto minha morte quanto agora, por entre as lágrimas implorei à deusa que me levasse de volta, que ceifasse o fio de vida sustentava meu corpo, me sentia incapaz, fraco e covarde por não conseguir acabar com aquela dor, covarde por não conseguir dar fim à minha vida, covarde por não querer voltar ao vale. Abandonei a vida e desisti de tudo, desisti do Sol e da Lua, do claro e do escuro, desisti da vida novamente e me definhei por entre as masmorras, sozinho, apenas com o frio e a umidade.
Após muito tempo sem me mover, já não sentia mais meu corpo, apenas comecei a ouvir uma goteira de água pingando incansável ao longe, a única coisa que consegui pensar foi que a água gerava a vida. Vida, o que é isso para alguém que têm o espírito morto? Relutante, me arrastei até à goteira, pude perceber que as gotas vinham das intermináveis lágrimas do guardião da torre de observação do oeste, tão alto, grande e imponente, suas lágrimas silenciosas escorriam dos seus olhos, passam pela lâmina da sua espada, e desaguava numa poça próxima ao seu pé direito. Pela primeira vez senti conforto ao ver alguém chorar, ao ver alguém ali, eu não passava de mais uma sombra para ele, algo morto e esquecido num canto escuro, bebi das tuas lágrimas límpidas e senti o gosto doce da sabedoria, pude sentir minhas cordas vocais vibrarem e então criei coragem para lhe perguntar porque ele chorava, ele me respondeu que chorava pela dor da perda do mestre daquele castelo, que agora começava a ficar em ruína.
Sentei, olhei para o meu reflexo distorcido na poça d’água, e me perguntei quem eu era e o que havia feito todo esse tempo no escuro, e não tive respostas. Aquelas lágrimas começaram a doer em mim, senti que falhei, e que essa falha afetou a todos que estavam ao meu redor. Resolvi então enxergar pela escuridão, e procurar sentido na vida ao meu redor, aprender novamente sobre tudo e comecei a sentir que aquela escuridão era minha, e eu que mandava nela, e que também a emanava.
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