Chapter 2013 – Act 07, Page 26

Acho que hoje a inspiração ficou em casa, junto com a vontade e a disciplina, e comigo veio apenas a preguiça. Preguiça essa que me toma por completo, me deixa até mole e totalmente lento, acho que os neurônios que tinham sobrado após tanta fumaça, acabaram se liquefazendo dentro do meu cérebro e me deixaram com uma aparência péssima e olheiras imensas e pálpebras pesadas. Vejo tudo, escuto tudo, sinto tudo, mas nada há de me fazer interagir com o mundo externo. Desculpe-me sociedade hipócrita, mas hoje não ei de fazer parte dos teus ritos mesquinhos.

Ok, vou apenas participar do ritual de passagem de mais um inverno na vida da minha prima. O aniversário dela é daqui algumas horas, mas vamos passar a noite juntos, como nos velhos tempos, e com os velhos amigos. Não há nada de melhor no mundo do que ficar com aqueles que te fazem bem. Sinto apenas por não ter muita disposição para ficar feliz a noite inteira, sorrindo e gargalhando, hoje tenho alma de velho e corpo também, afinal a semana foi árdua e eu quase não dormi, fiz as contas e descobri que foram apenas 5 horas durante a semana inteira, e hoje ainda não dormirei. É prima, te amo pra caralho, pois deixarei de dormir só para ficar contigo.

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Dominando o Corpo

Me reencontrei na escuridão, comecei a compreender melhor seu ímpeto, descobri que aquela escuridão que estava à minha volta não me fazia mal, muito pelo contrário, era eu quem a prejudicava. A minha falta de coragem havia enegrecido tudo ao redor, deixando tudo morrer lentamente enquanto eu estava morto e desacreditado. Havia experimentado o Medo, seu sabor amargo e aquela sensação estranha que percorria por todo meu corpo, me fazia tremer e chorar, por dentro eu estava destruído, mas por fora eu mostrava a bela e reluzente face daquele castelo, um verdadeiro forte seguro e capaz de proteger qualquer um, mas na real não conseguia proteger a mim mesmo dentro dele.

Redescobri que EU também sou o senhor das trevas, e que temê-las é arrogância, aliás, sou o meu senhor e senhor do meu Corpo e da minha Mente. E, por falar em corpo, é chegado o momento deu ir conquistá-lo, sozinho e sem ajuda da Mente, hoje sei que ela nunca me abandonou, apenas adormeceu para que eu mesmo pudesse me encontrar na escuridão e compreender que ser parte dela está no meu plano evolutivo, e no meu adiantamento moral.  Eu mesmo que projetei aquelas sombras, era então a personagem principal daquele cenário brutal e esquecido, eu e somente eu. Levantei-me e notei que podia ser maior do que o Guardião da Torre Oeste, que estava ali nas masmorras velando meu sofrimento, me ergui e caminhei ereto por entre as sombras, sem projetar luz ou precisar dela para compreender o que se passava ao meu redor, olhei para as mãos e notei que havia algo escuro nelas, uma espécie de lama negra que traduzia o reflexo do que o medo fez em mim.

Emergi das masmorras e subi o mais alto que pude, vasculhando cada canto entre as sombras procurando pelo meu Corpo perdido, e foi no topo da torre que o encontrei, senhor de si e líder das suas próprias sombras. Ali compreendi que, talvez, não conseguiria vencê-lo sozinho, só então senti que não estava sozinho, minha Mente acordara e me saudara de forma bem particular. Eu era a luz e meu Corpo as trevas, a luz me traduzia o conhecimento, e as trevas me traduzia o misto da ignorância e do desconhecido, compreendi que ambos eram facetas de um mesmo princípio, um não conseguiria se manter firme e forte por mais tempo, e eu provavelmente voltaria a definhar se não os deixasse coexistirem igualmente em mim. Há pouco tempo definhei por excesso de sabedoria, hoje sei que necessito da ignorância para me manter sábio, e mais ainda do desconhecido para me manter crente em algo.

Ambos armados e preparados para uma batalha épica. Estranho ter que lutar contra você mesmo, seria como esmurrar um espelho, e partem os peões. Aprendi na estratégia do xadrez que sempre os peões vão na frente, e depois devem ser seguidos os cavalos e bispos, para então só ter a guerra vencida. E, antes deu chegar à conclusão de que ser um rei não vale de nada, pois seus poderes são limitados a caminhar uma casa por vez, e quem realmente faz toda a diferença no tabuleiro é a rainha, recordei-me de que sou eu senhor e senhora do meu ímpeto, logo sou luz e sombra, logo sou corpo e mente, então sou Eu o Corpo. Não faz o menor sentido ter que duelar comigo mesmo, tenho que dominá-lo, e foi pensando nisso que me preparei ou fui preparado inconscientemente para um dia dominá-lo. Se ele representa minha ignorância particular e as minhas próprias trevas desconhecidas, devo uni-lo à minha luz e conhecimento, me preparei e assim o fiz, aos poucos e com muito esforço fui sugando suas trevas, trazendo de volta aquilo que um dia abandonei por medo, trazendo de volta o meu sentido para a vida. Cara a cara com meu corpo, compreendi que sou Eu o duplo da morte, Eu e somente Eu possuo o duplo da visão, o dom da vida e da morte. Eu sou senhor do meu Corpo e senhora da minha Mente, sou luz e sou trevas, sou completo por me reencontrar e saber que bem e mal são conceitos humanos e que o que é bom para você, pode não ser bom para mim. Seu eu o meu senhora e a minha senhora.