Chapter 2013 – Act 07, Page 31

Pela manhã recordo um pedaço de uma canção que ouvia na voz da saudosa Clara Nunes, os versos diziam algo como “fazendo um ninho em nosso peito, um ninho de amor perfeito. E o nosso amor, um amor perfeito.”, e agora o que sinto? O que sinto exatamente às 17 horas? Um misto de apreensão, dor, raiva e, talvez, desprezo. E, talvez hoje, será a gota d’água que transbordará a represa adormecida, a minha represa adormecida e cansada de atitudes impensadas, ou atitudes extremamente pensadas, ou então a falta de atitude. Por mais infeliz que possa ser a desventura que tenha ocorrido, hoje não ei de calar a voz que clama em meu peito tolerante, pois para tudo na vida há um limite e, escorpianos compreendem bem o ‘limite’ das coisas e possuem um limite muito restrito para tudo.

 

Não perca as cenas das próximas página, pode ser que algo interessante esteja a sua espera, ou será que eu estarei a espera de algo interessante. E o que define Interesse, se não um conjunto de interesses relativos e pertinentes, e o que me define é que realmente não tenho mais a visão ingênua da vida, infelizmente não a tenho mais, hoje interpreto qualquer coisa que alguém faça com a maldade da vida, e só então, peso e vejo se foi ingenuidade da pessoa. Vou parar de escrever agora, pois não conseguirei controlar meus dedos, que eu me cale antes de dizer sem respirar.

Ainda há tempo para eu me arrepender e apagar tudo que escrevi, mas não ei de fazer, pois aprendi que uma vez ditas as palavras, elas são levadas pelo vento e sopradas em cada ouvido.

A Comédia Humana – Honoré de Balzac

— Mostrar minha obra! — disse o ancião, emocionado. — Não! não! preciso aperfeiçoá-la ainda. Ontem, ao entardecer, pensei tê -la terminado. Os olhos dela pareciam-me úmidos, sua carne estava agitada. As tranças dos seus cabelos moviam-se. Ela respirava! Em bora eu tenha achado o meio de realizar numa tela chata o relevo e as rotundidades da natureza, hoje de manhã, à luz, reconheci meu erro. Ah! para chegar a esse resultado glorioso, estudei a fundo os grandes mestres do colorido, analisei e ergui camada por camada os quadros do Ticiano, esse rei da luz; como esse pintor soberano, esbocei minha figura num tom claro com uma pasta flexível e abun dante, porque a sombra nada mais é do que um acidente, guarda isso, garoto! Depois voltei à minha obra e, por meio de meias-tintas e de cores claras e translúcidas cuja transparência eu ia diminuindo gradualmente, reproduzi as mais vigorosas sombras e até os mais rebuscados negros; porquanto as sombras dos pintores comuns são de outra natureza que os seus tons claros; é madeira, é bronze, e tudo que quiserem, menos carne na sombra. Sente-se que, se as fi guras deles mudassem de posição, os lugares sombreados não se clareariam e não se tornariam luminosos. Evitei esse erro, no qual muitos dos mais ilustres caíram, e em mim a alvura se realça sob a opacida de da mais firme sombra. Não fiz como uma porção de ignorantes que pensam desenhar corretamente porque fazem um traço cuida dosamente nítido; não, eu não assinalei secamente as bordas exteriores da minha figura e não fiz ressaltar até a menor minúcia anatômica, porque o corpo humano não acaba por linhas. Nisso, os es cultores podem aproximar-se mais da verdade do que nós. A natu reza comporta uma série de curvas que se envolvem umas nas ou tras. Rigorosamente falando, o desenho não existe! Não se ria, ra paz! Por mais estranha que lhe pareça essa afirmação, algum dia você lhe compreenderá as razões. A linha é o meio pelo qual o homem se dá conta do efeito da luz sobre os objetos; mas na nature za, onde tudo é cheio, não há linhas: é modelando que se desenha, isto é, que se destacam as coisas do meio em que elas se acham: é somente a distribuição da luz que dá aparência ao corpo! Por isso não fixei os traços, espalhei sobre os contornos uma nuvem de meias-tintas louras e quentes que faz com que não se possa com precisão colocar o dedo no lugar em que eles se confundem com o fundo. De perto, esse trabalho parece nebuloso e como que falto de precisão; mas a dois passos tudo se afirma, se detém, se destaca; o corpo gira, as formas tornam-se salientes, sente-se o ar circular em torno. Entretanto, ainda não estou satisfeito, tenho dúvidas. Seria preciso talvez não desenhar um único traço, talvez fosse preferível começar uma figura pelo meio, dedicando-se primeiro às saliências mais ilu minadas, para passar depois às porções mais sombrias. Não é assim que faz o sol, esse divino pintor do universo? Ó natureza! natureza! quem jamais te surpreendeu nas tuas fugas! Olhem, o excesso de ciência, do mesmo modo que a ignorância, leva a uma negação. Não tenho confiança na minha obra!