A Comédia Humana – Honoré de Balzac

— Mostrar minha obra! — disse o ancião, emocionado. — Não! não! preciso aperfeiçoá-la ainda. Ontem, ao entardecer, pensei tê -la terminado. Os olhos dela pareciam-me úmidos, sua carne estava agitada. As tranças dos seus cabelos moviam-se. Ela respirava! Em bora eu tenha achado o meio de realizar numa tela chata o relevo e as rotundidades da natureza, hoje de manhã, à luz, reconheci meu erro. Ah! para chegar a esse resultado glorioso, estudei a fundo os grandes mestres do colorido, analisei e ergui camada por camada os quadros do Ticiano, esse rei da luz; como esse pintor soberano, esbocei minha figura num tom claro com uma pasta flexível e abun dante, porque a sombra nada mais é do que um acidente, guarda isso, garoto! Depois voltei à minha obra e, por meio de meias-tintas e de cores claras e translúcidas cuja transparência eu ia diminuindo gradualmente, reproduzi as mais vigorosas sombras e até os mais rebuscados negros; porquanto as sombras dos pintores comuns são de outra natureza que os seus tons claros; é madeira, é bronze, e tudo que quiserem, menos carne na sombra. Sente-se que, se as fi guras deles mudassem de posição, os lugares sombreados não se clareariam e não se tornariam luminosos. Evitei esse erro, no qual muitos dos mais ilustres caíram, e em mim a alvura se realça sob a opacida de da mais firme sombra. Não fiz como uma porção de ignorantes que pensam desenhar corretamente porque fazem um traço cuida dosamente nítido; não, eu não assinalei secamente as bordas exteriores da minha figura e não fiz ressaltar até a menor minúcia anatômica, porque o corpo humano não acaba por linhas. Nisso, os es cultores podem aproximar-se mais da verdade do que nós. A natu reza comporta uma série de curvas que se envolvem umas nas ou tras. Rigorosamente falando, o desenho não existe! Não se ria, ra paz! Por mais estranha que lhe pareça essa afirmação, algum dia você lhe compreenderá as razões. A linha é o meio pelo qual o homem se dá conta do efeito da luz sobre os objetos; mas na nature za, onde tudo é cheio, não há linhas: é modelando que se desenha, isto é, que se destacam as coisas do meio em que elas se acham: é somente a distribuição da luz que dá aparência ao corpo! Por isso não fixei os traços, espalhei sobre os contornos uma nuvem de meias-tintas louras e quentes que faz com que não se possa com precisão colocar o dedo no lugar em que eles se confundem com o fundo. De perto, esse trabalho parece nebuloso e como que falto de precisão; mas a dois passos tudo se afirma, se detém, se destaca; o corpo gira, as formas tornam-se salientes, sente-se o ar circular em torno. Entretanto, ainda não estou satisfeito, tenho dúvidas. Seria preciso talvez não desenhar um único traço, talvez fosse preferível começar uma figura pelo meio, dedicando-se primeiro às saliências mais ilu minadas, para passar depois às porções mais sombrias. Não é assim que faz o sol, esse divino pintor do universo? Ó natureza! natureza! quem jamais te surpreendeu nas tuas fugas! Olhem, o excesso de ciência, do mesmo modo que a ignorância, leva a uma negação. Não tenho confiança na minha obra!

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