Chapter 2013 – Act 10, Page 03

Gostaria hoje de compartilhar com o mundo um dos meus poemas prediletos:

Eu te gosto, e tu me gostas

desde tempos imemoriais.

Eu era grego, você troiana,

troiana, mas não Helena.

Saí do cavalo de pau

para matar seu irmão.

Matei, brigamos, morremos.

 

Virei soldado romano,

perseguidor de cristãos.

Na porta da catacumba

encontrei-te novamente.

Mas quando vi você nua

caída na areia do circo

e o leão que vinha vindo,

dei um pulo desesperado

e o leão comeu nós dois.

 

Depois fui pirata mouro,

flagelo da Tripolitânia.

Toquei fogo na fragata

onde você se escondia

da fúria de meu bergantim.

Mas quando ia te pegar

e te fazer minha escrava,

você fez o sinal da cruz

e rasgou o peito a punhal…

Me suicidei também.

 

Depois (tempos mais amenos)

fui cortesão de Versailles,

espirituoso e devasso.

Você cismou de ser freira…

Pulei muro de convento,

mas complicações políticas

nos levaram à guilhotina.

 

Hoje sou moço moderno,

remo, pulo, danço, boxo,

tenho dinheiro no banco.

Você é uma loura notável,

boxa, dança, pula, rema.

Seu pai é que não faz gosto.

Mas depois de mil peripécias,

eu, herói da Paramount,

te abraço, beijo e casamos.

 

Carlos Drummond de Andrade, in ‘Alguma Poesia’

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