Chapter 2014 – Act 05, Page 03

Sábado é dia de centro, e hoje não foi nada produtivo. Ontem minha pombogira me instruiu para acender os firmamentos de esquerda, pois hoje seria gira de esquerda, e assim o fiz. E hoje quando chego ao centro sinto que as energias estão completamente disformes, e sinto lhe informar Pai de Santo do terreiro, não é apenas a sua energia que manda ali, mas a dos outros dois sacerdotes também, mais de um do que do outro. E você sabe de quem estou falando.

Mesmo com a energia pesando sobre meus ombros, me mantive forte e fiel ao meu compromisso, estranhamente hoje durante o dia todo senti a presença da minha preta velha comigo, me guiando e ajudando a suportar aquele clima desagradável, e quando a reunião começou, foi ela que me fez calar e ter a paciência que somente a linha das almas possui.

Uma discussão desnecessária, uma sequência de alfinetadas em um e em outro, a  lavação de roupa suja e inúmeros pontos de injustiça vindo à tona. O que é isso gritava minha pombogira, os ciganos preferiram se retirar daquela zona, meu caboclo ficou às minhas costas e a vóvó se manteve ali, firme e forte segurando as minhas mãos. Enquanto lançavam as cobras uns aos outros, e em nós também, meu caboclo simplesmente as pisava. Infelicidade, apenas isso que senti no momento, vontade de ir embora, sair dali e não mais pisar naquele lugar que agora já está profanado.

Mesmo após o lapso de energia que houve com a retirada de um dos sacerdotes, o dirigente ainda assim insistiu em fazer o firmamento de uma linha de Ogum, mesmo com as contraindicações do outro sacerdote, com o qual mais me identifico, pois trabalhamos nas mesmas linhas e com as mesmas forças. Afinidade, essa a palavra que nos descreve, e por essa afinidade projetei meus pensamentos para ele, que compreendeu com facilidade. Mesmo assim, o dirigente insistiu em continuar com o firmamento, um erro, já logo aviso aqui e agora, um Ogum que cruza com as linhas de esquerda firmado em meio ao caos, certamente é pai Exu colocando a casa em teste. E nesse teste, a casa não passou, mas quem sou eu para dizer algo, não é mesmo senhor dirigente?

Quem me acompanhou durante todo o firmamento foi meu Exu, tão intrínseco comigo que mal conseguia me mexer sem que sentisse seu peso em meu corpo, minha face mudou de expressão e quanto mais próximo ao solo que ficava, melhor me sentia. Saravá meu Exu, salve as forças da Terra, salve as forças de pai Omolu. E o que posso concluir de hoje? Por mim, Matheus Pinto, não retorno para lá sábado que vem e peço meu desligamento da casa, mas como essa decisão não cabe somente a mim, tenho que esperar o que Caboclo e Pombogira definem, pois ambos são meus guias, sei que isso pode parecer confuso, mas Padilha anda à minha frente sempre, e é ela quem dita as cartas desse jogo.

Estranhamente hoje, não sinto a presença de nenhum dos dois comigo, apenas o Exu que está ao meu lado, carrancudo como sempre, mas sorrindo agora. Me sinto confortável em conversar com todos meus guias e guardiões, os sinto tão próximos e muitas vezes humanos que é um alívio saber que sempre estive certo quando se trata de forças sobrenaturais, eles realmente não são perfeitos. Mas tenho que refletir bem sobre tudo, talvez seja a hora de mudar de rumo e procurar lugares mais próximos e com políticas mais amáveis, e não uma briga de ego, pois foi isso que vi. Bem, já me acostumei a guardar para mim tudo aquilo que vejo, mas não tem como esconder as cobras vermelhas que se rastejavam e era atiradas sobre todos, cobras mordendo cobras. Falsidade e mais falsidade. Conversem logo entre si meus guias, não sei que quero continuar por aqui mais tempo.

Gostaria de poder sentar e conversar com todos os meus guias de uma única vez, num café confortável, mas agora imagino se fosse assim tão simples. Um caboclo de quase dois metros de altura, que usa apenas uma calça branca, cabelos negros e lisos bem longos, e um penacho que se estende até os pés; uma pombogira de saia de rendas pretas e vermelhas, cinta liga, espartilho de rendas combinando com a saia, cabelos cacheados castanhos e bem arrumados na cabeça num penteado único; um exu que em sua forma humana se apresenta como um homem com as mãos curvadas para trás e sempre as mantém nas costas e fica agachado nos cantos; a preta velha que não anda sem a ajuda de sua bengala minúscula, sempre sorridente e com seu cachimbo acesso, que fala pausadamente e com bom humor; um preto velho que está sempre sério e de poucas palavras, mas quando pega para conversar e contar histórias, senta que o tempo voará aos séculos passados; e todos os outros guias que passaria o resto da noite descrevendo. Agora imagina tudo isso junto e misturado num café sendo visível para todo mundo. Não se as pessoas se sentiriam confortáveis.

Enfim, guias, por favor, pesem logo todos os prós e contras, temos apenas 7 dais para decidirmos se continuo por lá ou não. Sei que a pombogira já empunhou sua espada e saiu desbravando o mundo em busca de outras coisas. Tudo bem caboclo, ei de esperar a resposta. Ah, e sim, a minha pombogira é uma mulher e tanto, sempre sorridente e senhora de sarcasmo incomum, faz qualquer marmanjo tremer as pernas quando a vê séria na encruzilhada empunhando uma espada que leva presa em sua saia de 7 barrados. Laroiê pombogira.

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