Chapter 2014 – Act 05, Page 06

Sabe aquela sensação que te faz se sentir incompleto? Pois bem, hoje sei bem como é sentir isso. Começo a escrever no meu Moleskine no sórdido balanço do metrô, seguindo silencioso por entre as sombras dos túneis e aqueles que as habitam. Aos poucos o vagão vai se tornando o porão figurado de um navio de escravos, afinal todos nós estamos fadados à alguma rotina, seja ela até mesmo o ‘despertar’. Os grilhões de hoje são menores e ficam nas mãos, são chamados de smartphones. A superlotação continua a mesma, o que difere dos tempos antigos é que hoje há uma construção moral de “Ideal de Conforto”. E você quer saber sobre os carrascos? Ah, esses hoje vestem linho nobre, gravatas de seda e estão obesos, provavelmente à frente de um grande banco ou coorporação.

Minhas mãos doem pela falta do hábito de manchar as folhas de papel com letras e palavras soltas. Há algum tempo as pessoas não me olhariam como me olham agora, como se fosse eu uma aberração da natureza, pois registro em papel meus pensamentos insones, enquanto todos utilizam seu gadgets para isso. Gostaria de ter mais tempo para fazer isso, porém estou condicionado à minha árdua rotina de trabalho, faculdade, freelas, ballet, teatro e mediunidade. Ainda estou digerindo o que foi dito no sábado, e aguardando pacientemente a decisão da minha dama e senhora de vermelho e preto, que gira e gargalha na noite, enfrentando a todos com riso de moça na encruzilhada. Se ela vai à frente, há outros que me guardam o caminho e às costas, e com toda certeza, há aquele que me guia entre os caminhos que ela percorre faceira e ligeira, tão rápida quanto a bruma.

Sentou agora ao meu lado um belo e musculoso paladino. Há quanto tempo não sentia o calor de um paladino como este, há quanto tempo não aprecio beleza como essa. Enquanto grafo minhas palavras, ele me olha com o canto dos olhos tentando desvendar os ícones aqui gravados, me simpatizei por ele. Gostaria de ser mais safo e lhe perguntar alguma coisa, simplesmente encontrar motivos para dizer ao menos “bom dia belo rapaz”, mas creio que não será possível tal façanha, pois não me sentiria muito à vontade em fazê-lo. Preciso mudar isso em mim, preciso ser menos tímido quando se trata de flerte com paladinos.

Bem, sabes o que me anima? É saber que apesar do tempo passado sem escrever no metrô, ainda não perdi o compasso da eterna dança com a caneta no embalo do vagão. Agora chego ao meu destino, me transformo apenas mais um nessa multidão acéfala que superlota as escadas, apenas mais um escravo do sistema. Sigo em frente, andando, pensado, escrevendo, gritando intimamente, sigo lutando por um dia melhor, melhor para mim, melhor para você caro acéfalo, e melhor para tal belo paladino musculoso que me acompanha também nas escadas, ao meu lado subindo degrau a degrau juntos. Será que lhe passa na mente os mesmos pensamentos que os meus? Será que realmente deixarei essa oportunidade me esvair por entre os dedos? Infelizmente a coragem me abandona quando chega o momento de prová-la e mostrar ao mundo que sou capaz de flertar.

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