Chapter 2014 – Act 07, Page 30

Tudo que se quer é RELIGAR a vida. A minha vida. A sua vida. A nossa vida. Tudo aqui é frágil, e talvez seja essa fragilidade o forte dessa constante e desprezível via que todas as coisas seguem. A simples espera se torna o apogeu da maior tortura existente, a espera, e quando o que há de vir é aquilo que tu sempre quis que viesse, se não vir, há de se chatear ainda mais com tudo, com nada, sem nada. E se o fato fosse o contrário? E se não houvesse fato. Não iria esperar, não irei esperar, não vou desesperar, não vou me sufocar. Não vou congelar e deixar de amar o meu Eu. Mas quem sou eu para obrigar alguém a algo? Talvez tu não sejas mais meu abrigo, será que o obrigo?

E quando paro, penso. E quando penso, apenas consigo ver refletido meus olhos de Ajé. Ajé essa cá que vê tudo e sabe de tudo. Uma Ajé envolta em todos os seus mistérios e brumas, sabes que posso saber exatamente onde estás e o que fazes, sem nem mesmo precisar me esforçar para isso. Mas, de que me adianta saber de tudo isso se nada irei fazer, não é mesmo? Quem sabe torturá-lo com sua própria memória, dor e culpa, culpa essa por me fazer esperar. Odeio esperar e ainda hoje sinto aquilo. Mas, sou capaz de respirar e guardar na gaveta dos pensamentos, no momento certo essa espera terá retorno, e assim caminha a vida, a espera de um eterno retorno. Ou seria uma eterna opção de “religar”? Por fim, viveremos e ainda assim, sem saber ….

 

 

“Nada sei da minha morte, mas sei que tudo em minha sorte é muito natural”

— Leo Cavalcanti, Religar.

Chapter 2014 – Act 07, Page 29

Há certas coisas que é melhor não registrarmos na vida, e pensando nisso eu me pergunto qual seria a minha diferença dos outros. E a resposta seria: nenhuma. Sou eu assim tão homem quanto qualquer outro homem, evidentemente que as vezes meu ímpeto é um tanto quanto feminino, mas qual o problema de ser, as vezes, um “homem feminino”?
Me igualaria a ti se omitisse alguma informação? Sim, me igualaria e assim o fiz. Se ainda não sabes, descobrirá que não é uma boa ideia mentir para mim, ou tentar me enganar seja no que for, acabarei intuindo no mesmo instante e descobrindo minutos depois, então será melhor que sempre me fale a verdade e sejas leal, não peço a ninguém que sejas fiel, fidelidade não compete a nenhum instinto animal, e o humano é um animal. Mas enfim, isso não é assunto para o momento, mas será para daqui alguns dias, ou meses, ou anos, ou nunca será assunto.
Tenho a filosofia de não me arrepender daquilo que fiz, mas sim daquilo que não fiz, mas as vezes me dá um certo nervoso em me lembrar da minha jura sobre não consultar o oráculo sobre a minha vida amorosa. Mas, como um bom bruxo, sei onde pegar a falha da minha própria jura, e assim não me torno perjuro, mas também não tenho a certeza de que aquilo se aplica a mim, ou a outros. Ah, como é doce realmente saber da vida, mas eu agradeço por ter feito essa jura, pois se eu soubesse previamente o final de tudo, nem me esforçaria em começar e tentar fazer dar certo. E agora lhe pergunto, até que ponto estás indo para que isso dê certo, ou, acho que devo melhorar ainda mais a pergunta, tu queres que isso dê certo?

Chapter 2014 – Act 07, Page 28

Com a raiva que sinto nesse momento, poderia praguejar até tua vigésima segunda encarnação, mas sei que isso não mudaria nada e eu só atrasaria ainda mais meu retorno. E não me venham vocês, jovem estudantes de magia me dizerem que devo controlar meus ímpetos, pois não me conhecem para assim dizê-lo. Mas já que o assunto é ímpeto, ei de pensar efetivamente sobre ele, pois depois que respiro profundamente tudo passa ao meu redor, mas o ódio que senti com o teu descaso é tamanho que ainda sou capaz de secar uma figueira inteira apenas com um toque, ou um olhar. É engraçado ver que quando me sinto tomado pela raiva ou ódio, emano uma energia tão forte que faz todos se afastarem de mim, inconscientemente. Uma sobrancelha elevada, um olhar frio, a boca cerrada e o ar da arrogância, fazem com que o mundo não lhe dirija a palavra. Mas essa efusão de sentimentos é tão grande e intensa que me deixa enérgico, não me suga nada, muito pelo contrário, me alimenta e me deixa extremamente disposto. O bom é que sei canalizar essa energia para algo que não fira nada nem ninguém, apenas eu mesmo. Rolo de um lado ao outro da cama sem conseguir pregar o olho, mas prefiro isso ao te recriminar e execrá-lo.

Chapter 2014 – Act 07, Page 27

Despejo da Mustache e depois encontrar o meu guri. Ta, a segunda parte teria sido legal se o tivesse visto, ao menos. Mas não, não o encontrei e ainda tive que esperá-lo por 1 hora e quando minha paciência esgotou, resolvi ir embora, alguns outros teriam ido embora antes mesmo de completar uma hora. É, acho que sou muito tonto para essas coisas, sempre acredito na segunda chance, então …
Mas também é assim, a segunda chance é a última, até porquê, gato escaldado tem medo de água fria (um dia você também entenderá isso). A despedida da Helena foi bem divertida, e descobri que aliar cansaço e duas caipirinhas pode te alcoolizar muito rapidamente. Ainda bem que conheço meus limites e sei bem o quanto posso beber, exceto quando realmente quero fugir de algo, aí eu realmente extrapolo. Mas para quê fugir com a bebida se tinha a Mari para fugir. Há quantos dias mesmo eu não fumava? Já nem sei se consigo lembrar, aliás, já nem sei se lembro de tudo.
Escrevo em casa, um tanto quanto cansado e instruído pelas minhas lindas mães ancestrais. Elas me dizem que o guri está bem, bem até por demais, e que não era para eu me preocupar, já que ele não se preocupou em saber onde eu estava e muito menos como entrar em contato comigo. Elas me disseram coisas que é melhor eu nem pensar, afinal, o que os olhos não vêm, o coração não sente.
E é assim que vou terminando essa noite, sozinho na minha cama, carente e desejando intensamente um corpo aqui junto ao meu, algumas caricio se outros orgasmos, mas já que não terei nenhum nem outro, ei de contentar com o sono que chega sorrateiro.

Chapter 2014 – Act 07, Page 16

Cafeína é realmente um forte energético para mim, hoje era ainda 5 horas da manhã e eu já estava acordado. E sim, fiquei enrolando na cama para conseguir dormir. O melhor cochilo foi entre às 6 e às 8 horas. Mas de que adianta tudo isso, se tenho que sair do conforto da cama para ganhar um sopro gelado do vento e me arriscar por entre as águas quentes que jorram incessantes da parede, numa coisa que chamam de chuveiro. Até hoje não compreendo o motivo pelo qual chuveiro é chamado assim.
Creio que já me encontro no ápice da loucura coletiva, pois hoje vi uma senhora conversando com a outra e também pude ouvir a conversa, até aqui nada de estranho, o problema era saber que uma das senhoras não se encontrava propriamente viva, ou seja, roupas de outro século e um espectral ar de morta, acentuado pelo vestido rasgado e a marca de um tiro em seu peito. Enfim, quem sou eu para falar algo sobre normalidade, vida ou morte. “Vida ou morte” essa expressão me faz lembrar de Graciliano Ramos, e o que isso tem a ver com a história? Talvez nada, Severina.
Um pouco inerte e ainda com sono, sigo rápido por entre os túneis do sistema metroviário de São Paulo, ouvindo o murmúrio das conversas alheias, aliado com o descaso e inércia de sentimentos e pensamentos. Enfim, de que me adianta ter tanta capacidade de me concentrar em assuntos externos, se esqueço dos meus próprios assuntos. E ainda acho que nas paredes entre os bancos deveriam ter tomadas adaptadas, assim poderíamos carregar um pouco mais a bateria dos nossos smartphones, notebooks, tablets e outros.
Ah, deves estar curioso para saber sobre o meu “nervosinho”. Ele está bem, deu sinal de vida ontem e está aparentemente normal. É como mencionei, não posso cobrar muito de ninguém, pois não sou o exemplo de assiduidade e muito menos de presença. Ainda mais quando estou um pouco irritado com a minha própria vida. Enfim, parece que tudo está normal, mas ainda não sei se ele irá no cinema comigo hoje, o que importa nesse momento é que convidei a minha prima para ir, e se ele quiser nos acompanhar, será bem-vindo.

Chapter 2014 – Act 07, Page 15

Vos escrevo sob o efeito de cafeína, sério, sob o efeito de muita cafeína e isso está me dando muito gás na vida. Mal consigo conter os movimentos do meu corpo. E o que dizer sobre a vida de hoje? Uma excelente pergunta meu caro Watson.
Como me sinto hoje? Bem, começo a narrar pelo fato de que tenho alguém que não sinto ter. Complicado? Nem tanto, compreenda. Estou com um guri, e como todo início de alguma coisa, nós falávamos sempre, todos os instantes, mas agora mal ele me responde o “bom dia”. Também não posso cobrar nada dele, não sou um exemplo de assiduidade ou atenção. Dependendo do meu humor visualizo sua mensagem e não respondo no momento. Mas enfim, sinto falta de um pouco de atenção, e ele agora parece esfriar e se distanciar, pode ser coisa da minha mente efêmera, ou talvez pode ser a realidade. O fato é: sinto falta dele, sinto falta da atenção dele.
Ah, como é doce essa paixão dos jovens (me sinto como um velho agora), tão efêmera e intensa, que, quando esfria um pouco, dói na alma e no coração. Mas esse velho coração que bate aqui no peito fatigado já está acostumado a esse tipo de momento, chamado por alguns de bolso. Calma, explico melhor se tua mente fez aquele tradicional barulho de ‘bug‘ que só os usuários de Windows compreenderão. Gays costumam viver relacionamentos de bolso, ou seja, quando cansam de alguém, o colocam no bolso e tiram outro alguém para começar algo, sem finalizar o anterior, pois se algo der errado nesse novo o anterior pode ser resgatado e “tudo volta a ser como antes”. Não que eu queira isso, afinal gosto do meu ‘nervosinho’. Mas é pergunta é, meu ‘nervosinho’ também gosta de mim e está disposto a não me colocar no bolso? Creio que isso é uma cena para os próximos capítulos, ou atos, ou, até mesmo, páginas.
Sempre busco um novo significado e, por mais que me irrito com algumas atitudes ou falta delas, não deixo que isso saia do meu controle. Aliás, sempre me mantenho no controle, e hoje não será diferente. Mandei mensagem para ele às 16h29min, perguntando-lhe como estava sendo o dia dele, e até agora não obtive um retorno. O dia dele pode estar uma merda, ou também pode ter sido muito bom, não saberei tão cedo, pois não mais perguntarei nada até ele responder ou me procurar. Mas, e se ele não responder mais? Uhm, talvez ele tenha me colocado no bolso, e se isso acontecer, talvez não mude nada na minha vida, só me deixe um pouco mais incrédulo nesse mundo de “relações de bolso”. Ah, antes que me julgues ou me chames de desistente tão fácil, ontem liguei para ele quando não obtive resposta por horas sobre ele.
Enfim, que chegue logo a estação Jabaquara, quero chegar em casa e tomar um banho, ver meus e-mails, jogar conversa fora com a Lua e compreender o que posso mudar na minha vida de merda. Talvez não deva mudar nada, ou talvez eu mude tudo. Quem sabe eu não me torne um cara melhor, mas aí me pergunto, o que seria um cara melhor? Queria não estar indo para casa agora, queria correr e ir para Amsterdã observar uma praça central e viver a vida de uma forma completamente diferente do que vivo agora. Mas, posso viver de uma forma completamente diferente aqui mesmo, basta apenas observar a vida por outra ótica. É isso, passarei a tomar mais café no final da tarde, isso me dá ânimo de viver e seguir em frente, e quando digo viver, digo realmente viver e não apenas sobreviver a vida, como todos acabamos fazendo. Ora, imagine agora se minha vida acabasse nesse momento, chegaria a Summerland e diria o quê aos meus irmãos que por lá ficaram? Que vive uma vida de merda e que não fiz muitas coisas que planejei fazer, como correr pelado por entre as pirâmides de Gizé? Não, farei algo diferente da minha vida, nem que isso me custe algumas noites de sobrevida. É isso, farei algo diferente.

 

Ps.: Ele respondeu ;D

Chapter 2014 – Act 07, Page 12

E se hoje eu resolvesse dar fim de tudo, não seria a primeira vez que o tento. Seria essa a terceira ou quarta vez, a verdade é que já perdi as contas de quantas vezes tentei tirar a minha vida, lembro da primeira como se fosse hoje. Calmantes são fáceis quando se tem insônia e seus pais não admitem que a causa é depressão, pois nunca compreenderam como um jovem que tem tudo pode ter depressão. O tal “TUDO” é bem relativo para mim, pois na verdade nunca tive nada e sempre vivi uma utopia, e quando conquisto algo, simplesmente o interesse se esvai, e volto à velha problemática do “NADA”.
Hoje, antes de tentar mais uma vez, consegui respirar fundo e esquentar a cabeça no banho, nesse frio suicídio mesmo seria tentar esfriá-la com um banho gelado. E para onde irei agora? Ainda não sei. Talvez sentar em algum lugar que me faça esquecer da minha vida, dançar me proporciona isso. Hoje não sou uma boa companhia para ninguém, nem mesmo para mim. Queria tanto ter sido forte na segunda vez, quando um coquetel de calmantes não deu certo. Aliás, acordei no dia seguinte pior do que antes, a sensação de fracasso é bem pior do que a fraca decisão de findar isso tudo. Acho que foi lembrando disso que hoje preferi sair e ver o mundo por outra ótica.
Outra ótica, tenho para mim que esse é o maior problema em mim, insistir em ver tudo por uma outra ótica. Nem sempre há um outro lado para ser visto, nem sempre quero ver um outro lado. Fraco. É assim que me sinto agora, fraco e intimamente enganado. E o pior, enganado por mim mesmo, vivendo uma utopia e a confundindo com a realidade. O meu mundo é bem melhor que a tua realidade barata, mas o meu mundo é parte do que tu chamarias de loucura ou demência. Mas quem nessa porra de realidade é normal?
Sou tão fraco, que conto nos dedos de uma só mão a quantidade de vezes que chorei na vida. E hoje, tudo que eu queria era apenas chorar e expulsar tudo que está no meu peito, e ter o abraço de alguém. Sei que não terei nada disso. Queria tanto gritar para o mundo e contar-lhes o que se passa dentro da minha mente insone, mas nem mesmo eu sei o que se passa nela. Um dia … Um dia sinto que conseguirei transmitir tudo que sinto, tudo que passo, tudo que vejo, sinto, ouço e penso. Um dia …
Um dia quero acordar e não estar mais aqui, quero me orgulhar de ver o Sol batendo na minha janela todas as manhãs e dizendo bom dia, quero pode viajar e viver a vida de uma forma que só eu possa compreender o sentido e significado de ‘vida’. Um dia não quero mais acordar aqui. O nó que se fez em meu peito, agora está mais solto, mais leve, frouxo diria, o que importa é que não penso mais em interromper o funcionamento da linha azul do metrô, em ter que remover mais um corpo dos trilhos. Acho que isso tudo vale um café, ou um chá. Sei que seria divertido sofrer desta forma em Paris, pelo menos posso sentar e observar a Torre Eifel enquanto bebo minha dose de cicuta sem pressa. Essa sim seria uma morte digna de um conto, e sem contar todo o mistério que haveria em tentar descobrir a o motivo que levou um jovem paulistano de 21 anos tirar a própria vida como fizera Romeu. Mas no meu caso não haveria uma Julieta, e sim outro Montecchio.
Enfim, quais conclusões levo desta vida? Algumas, e dentre elas estão as que me impossibilitam de embriagar-me novamente com tantas drogas vendidas com bula, e algumas doses de álcool, e também outras coisas mais. Tenho ainda alguma coisa a ensinar ao mundo, ou aprender, mas uma coisa eu tenho certeza: uma vez suicida, suicida sempre. Ah, outra certeza, não há ninguém do meu círculo de conhecidos que sabe que já atentei contra minha vida algumas vezes, menos ainda sabem os motivos que me levaram a tal ato.