Chapter 2015 – Act 06, Page 28

Hoje pareço um adolescente rumo ao seu primeiro encontro. Ok, por mais encontros que tenhamos na vida, os primeiros com a pessoa são sempre os mais especiais e, por incrível que pareça, eu ainda fico nervoso com isso. Mas hoje, tecnicamente, não é o primeiro encontro com o Rafa, pois sexta-feira nos encontramos no metrô. Metrô de Sampa, unindo as pessoas desde sua inauguração. Ok, falemos sobre o Rafa que o fator principal desta página. 

O que dizer dessa pessoa que conheço tão pouco e já considero muito (eu disse que me sinto um adolescente, hahahaha). Vejo muito de mim no Rafa, e isso é bom, pois somos atores, trabalhamos com comunicação, amamos danças e temos os mesmos gostos. Somos bem parecidos, exceto pela nossa altura, pois até o cabelo e barba são parecidos. Bem, graças à Raissa estou algumas horas atrasado para o encontro. 

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Chapter 2015 – Act 06, Page 26

Dia frio. Pela manhã a brisa gélida nos agracia com sua presença de 9*C, seu sorriso amargo adoça minha boca seca, e tudo vira do avesso. Para quem chegou em casa à 1h30 da manhã, acordar às 8 horas é um tanto quanto compreensível, não achas? Ao menos o metrô está quente, há pessoas bonita, digo elegantes, vivendo no seu mundo particular graças aos fones de ouvido. Hoje em dia é muito raro alguém conversar com uma pessoa estranha ao seu ciclo, e quando isso acontece, as pessoas não sabem como reagir e se sentem estremamente invadidas com a conversa. Ok, confesso que há alguns anos atrás eu também me sentiria invadido com a curiosidade ou afeto alheio, mas nesses meus tempos modernos, acharia muito proveitoso, e quem sabe, até engraçado. Me divirto quando encontro senhoras dispostas a conversar e contar seus causos e casos. Vale até debater sobre o preço do remédio da pressão. Muitas vezes, quando eu tomo a iniciativa de conversar, até elas se espantam, mas acabam cedendo à boa conversa.

Vejo tantos passos e compassos, que toda vez que saiu do vagão do trem, a marcha imperial soa na minha mente. Confesso que às vezes é a marcha fúnebre que eu ouço mentalmente ao ver todos caminhando no mesmo compasso, seguindo o mesmo rumo, com a mesma cara de desânimo por estar vivo. Não me excluo deles, muitas vezes tenho preguiça de estar vivo, mas aprendi a apreciar os pequenos sabores deste espetáculo chamado Vida. Sinto que o conteúdo útil já se fora, e logo menos também partirei. Tudo é apenas uma questão de tempo, e esse é bem relativo, diria até que já se tornou utópico, pois na Era da Informação, temos milhares de coisas para fazer, mas o tempo é o mesmo dos nossos ancestrais. Deve ser por isso que eles terminavam tudo que se propunham a fazer, em tempo recorde e com qualidade. Quem dirias que blocos de pedra e areia se manteriam rijos e íntegros até os dias de hoje.

É chegado o tempo do desembarque final desta curta viagem, do Jabaquara à Vila Madalena, vejo o mix cultural de São Paulo preencher e esvaziar os vagões na mesma intensidade, as pessoas passam e suas impressões e atos ficam. Por mais que eu pense e reflita sobre a vida, as palavras não saem da minha mente insone, a vida se torna efêmera, e eu, apenas mais um que deixo o vagão e sigo a minha marcha imperial para mais um dia na agência.

Preciso dizer que hoje conheci a melhor pessoa da semana, é o Rafael. Além de lindo, ele é fofo, simpático, tem atitude, conteúdo, e, as melhores partes, fez teatro e dança, é vegetariano e também entende dos orixás. E eu adoro essa minha qualidade de amar intensamente pessoas que conheço há poucos momentos, sou assim, intenso e escorpiano. Um beijo.

Chapter 2015 – Act 06, Page 12

Alguém, algum dia, disse que 12/6 era o dia dos namorados é que essa seria uma data importante e ‘mimimi’. Importante para o comércio que lucro um pouco mais com produtos e serviços destinados à casais. No metrô e nas ruas vejo alguns corajosos carregando sacolas modestas com lembranças singelas para a data não passar desapercebida, alguns outros, como eu, pouco se importam com esse protocolo social e andam livre das amarras sociais. Ok, talvez eu desse uma rosa em botão para o meu ‘namorado’, mas não seria justo com todos os meus outros amores. Ou seria? Imagine eu ter que comprar um presente para todas a pessoas que gosto e considero, iria à falência. Ah, super apoio você que curte muito essa data e gasta alguns bons trocados em presentes e experiências marcantes, mas eu prefiro uma ação sincera a cumprir esse protocolo mesquinho.

Estava há pouco conversando com a minha prima sobre relacionamentos e chagamos à conclusão de que nenhum de nós dois somos, o que a sociedade classifica como normais. Imagine eu ter que me preocupar com o que todos irão dizer ou pensar sobre as minhas atitudes, roupas, gestos, modos. Isso seria loucura. Mas, para o guri com o qual me relaciono, todo o que eu repudio é o comum a ele, os protocolos sociais de casal margarina, o cabelo arrumado, as roupas passadas, os sapatos alinhados, as vozes baixas, os olhares contidos, as vontades e desejos ocultos, a monotonia presente em todos os momentos, e, no rosto, um típico sorriso falso de um taurino mostrando apenas a aparência de felicidade. Me respeite, rapaz, e me diga o que é felicidade plena para você. Alguns poderiam soletrar isso como R-O-L-A.

Sinceramente, cheguei ao meu limite. Cansei de esmurrar facas, minhas mãos calejadas sobre com o impacto na lâmina afiada. Já conversei inúmeras vezes com este guri em questão, sobre suas atitudes impensadas e a vivência no seu mundo utópico é improvável, é esta será a conversa decisiva. A prova de que tentei fazer dar certo é que essa será a quarta, sim, você leu que essa será a QUARTA vez que irei conversar com ele. Caro leitor, tu que me conheces há um pouco mais de tempo sabes que não há precedentes disto, conversar com um cara que eu saiu pela quarta vez para tentarmos melhorar nossos pontos. Isso para mim é um cenário absurdo, quase utópico. Mas afirmo a vocês que esta será a última vez que converso com ele sobre esses aspectos, e eu disse a ÚLTIMA vez. É como a Raissa diz, num relacionamento ambos têm que ceder, eu já cedi muito, ele também cedeu, mas ele me cobra por coisas que eu odeio e ele sabe disso.

Nos últimos meses tenho pensado que a minha vida seria muito mais fácil e tranquila se esse meu namoro fosse algo normal, vide-se que o normal para os meus padrões, traduzindo para a sua realidade, seria um relacionamento mais light. Eu me considero um cara bem legal para namorar, pois incentivo o guri a sair e curtir com os amigos, não cobro explicações e muito menos quero saber onde está ou com quem, se não quiser ir comigo a algum lugar não faço drama e irei sozinho ou com amigos, e por aí vai. Faço tudo para tentar integrar todos os lados, os dele e os meus, mas esse guri é completamente diferente de mim. Me questiona e me cobra tudo, quer saber os meus passos, e, de forma velada, tentar me afastar dos meus amigos. Faço de conta que não vejo ou sinto isso, e ajo como um bom e velho escorpiniano, sorrio, aceno e o faço fazer o que eu quero fazer, sem ele perceber isso. Ok, confesso que sou um tanto quanto manipulador, mas quem não é?

A volta para casa de faz longa e monótona, e eu odeio isso. Todos presos aos seus ‘espertofones’ vivendo suas vidas vazias e satisfeitos ou não por terem cumprido a ‘cartilha do cidadão normal’, que acorda cedo, dedica horas e horas em trânsito e no trabalho, para ter a pífia certeza de que está fazendo algo bom para si mesmo. Se a felicidade deles é se enganar com seu mundo plástico, fiquem à vontade e vivam suas espetaculosas mentiras pessoais. Não me excluo destes, pois eu também busco a compreensão infundada sobre a minha vida, ultimamente, turva. Mas os raios do sol do novo mundo pairarão sobre minha mente e tudo mudará. Espero que eu esteja certo e que a minha vida realmente mude para melhor. 

Chapter 2015 – Act 06, Page 10

Ressaca sem nem ter bebido. Aliás, só essa é a única ressaca que tenho, pois nem quando bebo acordo desse jeito. Já são 9h14 e estou um tanto quanto atrasado, mas me pergunto de que me vale a pontualidade nesse lugar se nada lá é pontual, ainda mais comigo. Sei que essa minha fala é extremamente conformista e péssima, mas é real e me cansa tentar algo novo quando ninguém quer mudar, quando o trivial está perfeito. Enfim, não ei de considerar todos os pontos que tenho vontade, vivaria uma história sem fim. Ainda jogado na cama, olho para o futuro e vejo que preciso criar coragem para levantar e rumar à agência antes que dê 10 horas. Sinceramente as 10 ou 11 horas me confortam, não há trânsito é muito menos transporte coletivo entupido de gente.

Já no metrô e não consigo compreender a incoerência de usar uma seta indicando a plataforma que o próximo trem irá parar, se o mesmo não prestará serviço, e o próximo trem útil para na outra plataforma. Não consigo compreender muitas coisas nessa inteligência popular. Mas o bom é que encontrei algumas sulistas bem divertidas que me fizeram dar boas e sinceras risadas. Gosto de gente assim, que fala o que pensa e vive feliz desta forma. Sinto falta de um PET, queria tanto ter um dog para eu apertar, beijar, dar muito carinho e levar comigo para todos os lados possíveis e imagináveis.

Chapter 2015 – Act 06, Page 09

Novo começo. Vamos lá, viremos a mesa e seguimos em frente, cagando para o que as pessoas irão dizer e pensar. Meu olhar perdido por entre as telas alheias me traz à mente tudo aquilo que um dia já passou pelo meu corpo efêmero, que vibra a cada nova descoberta e se permite viver o novo, de novo. Sempre me orgulhei da minha capacidade de dizer algo e, ao mesmo, não dizer nada. Acabo escrevendo na sua língua, mas com significados completamente ocultos. Olhando daqui, percebo que é alto, mas talvez eu deva me jogar onde os olhos não consigam ver. Talvez funcione, talvez não. De tudo que sei, é que a vida passa translúcida pela janela e, nesse cenário, me tornei um ator coadjuvante. Não. Espere um minuto, este é o meu espetáculo e quando as luzes se apagarem sei que ninguém me aplaudirá, parte porque nunca precisei de plateia para ser feliz, parte porque nos últimos anos passei a ser espectador da minha própria realidade. Isso me fere profundamente.

Bem, pelo menos a companhia nessa volta à vida está excelente, como eu diria: mamãe fez com carinho. O belo poeta, preso em seu mundo de letras e páginas tenta desvendar o desfecho a arte cênica, seria ele um possível ator que passa a integrar meu espetáculo? Sinto que ele gostaria de me dizer algo, mas tenho o maldito defeito de nunca iniciar uma conversa com pessoas interessantes, mas sou excelente conversador quando iniciada a conversa. Acho que irei trabalhar isso em mim, mas aí entra a dualidade na minha persona, pois prezo pela minha particularidade e sinto que invadiria o espaço alheio se assim o fizesse. Mas sou bom em expressão corporal e também muito bom em entender o que o corpo diz e os olhos falam. Eterna dúvida do “ser ou não ser” agindo em mim neste exato momento. Sinto falta de um livro para ser também intelectual. Hahahaha. Ok, não sinto, pois não seria a capa de Flusser que me faria ser mais interessante… Será que faria? 

Ao som de Pitty, mais exatamente ouvindo ‘Máscara’, o refrão ecoa na minha mente insone: seja você. Ok, serei eu e apenas eu, um cara preso ao seu iPhone digitando mais um capítulo deste livro. Apenas umas ressalva, o belo poeta lia Sêneca, de Platão. Isso o tornou completamente mais interessante, pena que minha pequena miopia me permitiu ver isso apenas agora quando ele se levantou e passou por mim com o corpo frêmito. É, devo voltar ao meu mundo e ser eu mesmo, estranho ou bizarro, mas eu mesmo. É aí, quem será o primeiro a gritar ANÁTEMA? Aponte e gritem para mim, não ligo para o seu ‘coxismo’ exacerbado. Ao longo desta minha vida mortal me dada pelos deuses eternos, compreendi que pertenço a mim mesmo, e que não preciso viver a minha a particularidade  conforme as tuas regras morais mandam.