Chapter 2015 – Act 09, Page 16

Algo me tira o sono e ainda não sei o que é. O Sol quente invade o quarto e preenche todo o espaço e me desperta devagar como um amante sorrateiro que chega de mansinho e surpreende seu consorte. O relógio marca 6h21 e a vida parece reticente, minha mente insone começa a pensar algo que logo se perde na imensidão do meu lado sombrio. Observo o Daniel ainda em seu sono e o contemplo por alguns minutos, é tão bom acordar ao teu lado e lhe contemplar dormindo, e sabendo que tu também odeia ser acordado me deixa inquieto para lhe acordar. O tempo passa e o relógio marca 7 horas, levanto, ando pelo quarto, deito, olho o celular, tento dormir, o Sol ilumina ainda mais o quarto e tudo está tão barulhento dentro e fora da minha mente que desisto da cama e vou para o banho. Olho-me no espelho e vejo o reflexo de outrém, miro novamente naqueles olhos negros e nada mais vejo, sinto ou escuto. Volto à realidade e resolvo passar um creme no cabelo para melhorar a cagada que foi feita. 

De volta ao quarto, agora penso que a melhor opção era realmente ter saído cedo e ido para a agência numa longa caminhada, mas Sol forte era mais desanimador. A rota mais prática para eu ir a pé à agência, resulta num longo caminho sem árvores e margeando vias de muito fluxo de carros. No final do mês já consigo pegar uma bike, nem que seja uma de empréstimo do Itaú, e assim minha vida será muito mais fácil, feliz e amorosa. Mas, ao invés de sair da casa do Dan e ir para a agência, resolvi ficar e enrolar um pouco mais, olho o quarto e comecei a arrumar algumas coisas, mas como fui bem barulhento, o acordei. Chateado. Tento não entrar muito na arrumação dele sobre o quarto, mas eu não tinha nada para fazer e estava entediado. Morte horrível quando me torno inconveniente e compulsivo. Sim, sou compulsivo.

9h30. Chego na agência e a vontade de não ter que estar ali é forte. Reunião, alinhamento, ajuste, projeto novo, novos custos. Layout ajustado. Almoço. Costumo dizer que o almoço é o horário é o momento mais feliz do dia, e hoje fiz jus a isso comendo feito um retirante pobre vindo andando para São Paulo. De volta à agência a vida não é mais feliz. Por mais que a agência esteja quase vazia, ainda tem as cobranças desnecessárias.

20h00.  Momento de fechar a lojinha e dar tchau. O Dan é a melhor pessoa do mundo, felicito-me todos os dias por tê-lo conhecido. Ainda tenho que fazer todo o capítulo 7 do meu TCC para apresentar amanhã e a convivência na casa da minha mãe não está fácil. Bem, para contextualizar o caro leitor adianto que a convivência com a minha irmã não é fácil, num passado longínquo foi aceitável, mas nos últimos 10 anos o convívio está cada vez mais complicado. Entendo que minha mãe sinta o peso da culpa por nunca ter procurado ajuda profissional para a minha irmã e tenta corrigir os erros dos últimos dez anos agora. Espero que ela realmente entenda que já não posso mais deixar de viver a minha vida para continuar em função delas. Sinceramente não queria que esse extremo chegasse agora, mas já não consigo mais ser feliz vivendo desta forma, fugindo todos os dias da casa da minha mãe por causa da minha irmã. Me sinto um verdadeiro retirante que vive andando por SP com uma mochila nas costas e uma muda de roupa.

Talvez eu seja mais fraco do que penso, pois refletindo agora estou fugindo novamente da minha realidade. Observo meu passado e noto que essabé uma nova fuga, pois, aos 12 tentativa fracassada de suicídio, aos 14 escapismo pela cannabis, aos 16 “drugged mood” seguido pelo segunda tentativa fracassada de suicídio. Por isso digo que as pessoas só morrem quando o tempo delas na Terra realmente termina. Aos 17 anos chegou a hora de parar de fugir e encarar a vida, assumir as responsabilidades e seguirem frente. Aos 22 percebo que tudo que mais quero é fugir novamente da minha realidade, me propus aos 17 que não voltaria ao “drugged mood” e só continuaria com a cannabis, devo confessar que sou bem forte nesse quesito de me policiar. 

21h02. Chego em casa e vejo que a vida é feita de escolhas. A minha foi querer viver a minha vida e sair da casa da minha mãe, a de outras foi mudar a rede e senha do Wi-Fi para eu não usar. As vezes me pergunto se realmente vivo isso, pois tenho certeza que se alguém me contasse essas coisas eu diria: é mentira, ninguém consegue ser tão baixo assim com alguém, ainda mais na época do TCC desse alguém. Mas é a mais pura verdade e realidade. Ainda bem que o Dan me chamou para ir para a casa dele hoje, pois assim conseguirei fazer o capítulo 7 do meu TCC para apresentar amanhã. Daniel, meu belo príncipe, quero lhe agradecer por fazer parte da minha vida, por me permitir fazer parte da tua vida. Às vezes me sinto invadindo teu espaço, e faço isso muitas vezes, por favor, perdoe-me, mas os meus últimos meses não têm sido fáceis e espero que até o final deste tudo melhore e se ajeite na minha vida. Quero lhe proporcionar novas experiências, lhe apresentar o meu melhor lado. Vai por mim, sou um pouco mais legal e menos insuportável do que estou sendo nos últimos dias.

Às vezes tudo que o que sinto é uma enorme vontade de chorar, talvez seja por causa da aproximação da mamãe Yemanjá. A vejo em algumas noites e sinto o balanço das águas embalando o meu sono, e durante as manhãs escuto o grito do papai alertando que estou atrasado para continuar vivendo. Tenho vivido uma efusão de energias nos últimos meses que nem eu mesmo me aguento, a proximidade da mamãe me deixa tão sentimental que nem mesmo eu consigo lidar. Sei que em breve tudo se ajustará e voltarei ao meu “normal”, nunca antes pensei que voltar à minha normalidade seria algo realmente interessante. Enfim, são quase 22 horas e já estou na Consolação, ei de descer a Augusta e encontrar o meu belo paladino.

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