Chapter 2016 – Act 01, Page 22

Bem, ir dormir com um “precisamos conversar” não é uma coisa muito legal. A mente fica pensando em 300 mil possibilidades e é tudo fica meio turvo, incerto, estranho. É melhor não pensar muito nisso e deixar tudo rolar e acontecer naturalmente. O Dee é um guri muito fofo e gosta de mim, à sua maneira, mas realmente gosta. Ou, posso estar engano, mais uma vez, enganado. Tudo é incerto. 

Quero é preciso que essas férias forçadas terminem logo, já estou quase enlouquecendo por ter que ficar em casa tanto tempo assim. Agradeço por esse momento de descanso, mas já está na hora de voltar a ter dinheiro. Sinto mais falta de grana do que de trampo propriamente dito. 

Escrevo esses pensamentos enquanto corro na academia do prédio, que tem sido uma excelente aliada nesse tempo monótono de férias. Os dias têm passado tão devagar, tão iguais, tão inexpressivos, que quando olho a avenida em frente ao prédio reflito sobre o movimento da vida. Sobre a rotação do Caronte, a Lua de Sangue e a Azul. 

Queria que tédio estivesse diferente agora, melhor, qe tudo tivesse sido diferente num passado distante. Ou será que não quero nada disso, apenas continuar a correr e seguir em frente sem olhar para trás. Acho que não sei o que quero. Já não sei quem sou. Já sinto o calor do meu sangue aquecendo meu corpo, minhas pernas já seguem sozinhas pelo caminho curto da esteira e tudo está entrando em órbita ao meu redor. O transe está quase a caminho. 

OMG! Já são 16:35 e eu nem me dei conta. Tenho que encontrar o Dee às 17:30 na Consolação, e é óbvio que já estou atrasado. Sempre assim, fico pensando na vida, contando meus botões, assistindo alguma coisa e esqueço do tempo que passa lá fora. Só uma coisa ecoa em minha mente: corre bicha. 

Chegarei à estação Paulista dentro do horario, mas espero que a passagem do Batman esteja fluindo bem nesse horario, espero que seja contra-fluxo (não lembro que leva hífen na nova regra ortográfica, mas foda-se). Espero que o “precisamos conversar” do Dee seja algo bom. Estou me sentindo um garoto rumo ao seu primeiro encontro. Que os deuses estejam comigo. 

Minha intuição nunca falha. Estava certo desde ontem, mas achei muito honesto da parte do Rodrigo de me dizer que não conseguia gostar de mim na mesma intensidade que gostava dele. De todos os homens com quem me relacionei, sem sombra de dúvidas, o Dee foi o melhor. Fico feliz por ter tido ele em minha vida. Mesmo o amando, pois aprendi a amá-lo, o deixo livre para partir e ser feliz. 

Chapter 2015 – Act 12, Page 28

11h00. Aquele momento tenso que tu esperas o resultado do exame. Tentarei deixar a minha mente livre de pensamentos, isso me ajudará a não atrair bons e nem ruins. Esperar trinta minutos será uma eternidade neste exato momento. 

11h53. Tudo certo, nada de pânico. Pelo menos uma coisa ele não mentiu, não é mesmo? 

Senhora

William Waterhouse

Sou a negra que grita na senzala,

o grito de dor que assombra teu ser,

a voz que te encanta nos teus piores pesadelos,

a mulher que geme o gozo da dor de não ter escolha.

Sou senhora da minha arrogância,

matrona da minha ignorância e mulher das minhas escolhas.

Sou eu a senhora que grita e venta,

que alimenta teus pensamentos mais sórdidos

que dá azo à tua sagacidade.

Sou mãe da minha jornada,

amo meus amores,

seu sexo e dissabores.

Vento na noite fria, pois sou mulher e rainha.

Sou senhora,

Sou.