Capítulo 1 – Falcão Azul

Andando apressada pela rua escura, sentindo o prazer dos ventos lhe tocarem o rosto, com olhar distante e pele aveludada ela se desfaz na neblina que encobre a esquina, seu rosto alvo e boca carmim são avistados à distância por um nobre falcão azul, que passeia pelas ruas com seu belo blazer esporte, fazendo arfar até as mais bem casadas senhoras. Ele chega perto da jovem dama e a retira da esquina com apenas um acena de cabeça e olhar penetrante, a leva por entre as ruas sujas daquela zona da cidade. Eles passam por outras garotas que tremem em frêmito por um cliente que também as tire da rua fria, enquanto andam pelos becos e ruelas, ela observa os malucos vestidos como super-heróis, virgens pleiteando sua ‘pureza’, garotas que escorrem sangue pelas pernas, e rapazes sedentos por mais um grama do pó branco que os deixam em estado de total deploração, vê também a mendiga suja que dorme em seus trapos surrados, quando não é surrada por jovens que lhe roubam a dignidade. Mendiga essa que espera a sorte de um dia ter o amor tranquilo que lhe fora negado durante toda a vida, amor esse que a jogou às traças e, antes que se perdesse no desespero, encontrou a porta para a sorte e para a rua se atirou sem olhar para trás, sem querer voltar. Param em frente a um caro restaurante, ele pede uma mesa para dois e oferece à hostes uma boa gorjeta para coloca-los como os próximos da fila de espera.

Ela pôde notar o desconforto e receio do jovem Falcão em leva-la àquele restaurante, será que ele pensava que ela não saberia se portar diante de tanto luxo e requinte e, talvez, o envergonhasse. Ela nem ao menos sabia o nome do rapaz para iniciar uma conversa enquanto aguardavam a mesa, resolveu que não diria nada até que ele puxasse assunto. Ela foi pega de surpresa quando o rapaz passou a mão direita em volta de sua cintura e abraçou como dois amantes apaixonados, ela notou o olhar de cobiça da hostes pelo belo rapaz e uma pontada de ciúmes cresceu em seu peito. Encostou sua cabeça no ombro do belo Falcão e lhe acariciou o peito, ficaram assim, quietos, até que a hostes os chamou. Esta não passava de uma mulher esguia, com ar esnobe e cheia de interesse no que os clientes do restaurante pudessem lhe oferecer.

Chegaram à mesa e o metre lhe puxou a cadeira no mais nobre gesto de cavalheirismo segundo a etiqueta, o jovem rapaz solicitou uma garrafa de vinho e dispensou o metre. Sentou-se ereta e a sobriedade de toda bailarina, reparou que todos os senhores nas mesas próximas lhe lançavam olhares furtivos, algumas mulheres comentavam sobre o comprimento do seu vestido, outras comentavam sobre as joias singelas que ela usava, olhou para o jovem que lhe acompanhavam e reparou este lhe observava com doçura.

– Não se importe com os olhares, por favor, não lhe trouxe aqui para que se sinta mal. Disse o rapaz.

– De certa forma, já me acostumei com os olhares e comentários.

– Mesmo assim, desculpe-me. Ah, que falta de educação a minha, não lhe perguntei seu nome.

– Melissa. E qual seria o nome de tão belo rapaz? Perguntou.

O rapaz se preparava para responder quando o metre os interrompeu para apresentar a rolha do vinho escolhido ao jovem rapaz. Ficaram por alguns minutos conversando entretidos sobre a safra e os pratos que harmonizavam com o vinho. Os antepastos estavam divinos, o pão na textura certa e os dois se colocaram a petiscar.

– Se você não se importa, preciso ir ao toalete. Disse ao jovem enquanto colocava o guardanapo ao lado do prato.

Caminhou como se deslizasse por entre as mesas, arrancando olhares e suspiros de todos ao redor. Os garçons pararam o que estavam fazendo, o pianista dedilhou com mais entusiasmo as teclas do piano de calda que ficava no centro do salão, os homens mal conseguiam desviar o olhar, as mulheres recriminavam as roupas, o caos estava instalado no ambiente e ela sabia disso, gostava dessa sensação de poder.

Entrou no banheiro e seguiu para frente do espelho, enquanto abria sua pequena e discreta bolsa, em busca do seu batom, uma senhora entrou apressada no banheiro e lhe disse em alto e bom tom:

– Olha aqui garota, é melhor que você se retire, pois este é um ambiente de família.

Observou a senhora pelo espelho enquanto retocava o batom, a analisou por inteiro e, antes que pudesse responder, uma senhora saiu de uma das cabines e interferiu:

– Senhora, por favor, abaixe o tom para falar com os outros. Por algum acaso a moça lhe fez algum mal?

– Você não se intrometa, pois essa vagabundazinha está desfilando no salão com esse vestido curto e decote soberbo. Meu marido e filho mal conseguem comer quando ela passa.

– Por favor, a senhora já não tem mais idade para se importar com tais coisas. A minha filha usa roupas tão justas e curtas quanto, e nem por isso é uma vagabundazinha, como a senhora chamou esta moça.

– Só não irei lhe responder como merece por respeito à tua idade, pois está nítido que és mais velha do que eu.

A primeira senhora saiu e bateu a porta atrás de si. As duas se entreolharam e então a jovem agradeceu à senhora.

– Muito obrigada, considerei não responder, pois ela estava visivelmente transtornada.

– Essas velhas com crise de idade são assim mesmo, minha querida, cheias de inveja e recalque com moças bonitas e jovens como tu. Me passe a toalha, por favor.

– Claro, aqui está. Novamente muito obrigada por interferir.

– Não precisas me agradecer, criança. Talvez não consigas imaginar, mas um dia já estive num corpo parecido ao seu.

A senhora ria gostosamente enquanto secava as mãos e buscava o batom em sua bolsa. Melissa, como era conhecida na noite, lhe olhava com ternura e disse:

– Posso imaginar. A senhora tem a classe e postura de uma dama que soube aproveitar a juventude.

A senhora a olhou e antes que pudesse responder, Melissa se apressou em continuar.

– Por favor, não entenda mal, não quis lhe ofender, apenas disse que a senhora tem …

– Imagine, minha querida, não me ofendi. Muito pelo contrário, me senti elogiada, pois eu realmente soube aproveitar minha juventude e pernas torneadas. Interrompeu a senhora.

Melissa ria nervosa e continuou.

– Imagino que no seu tempo havia muitos rapazes fazendo a corte, não é mesmo?

– Ah, e como havia. Rapazes de todos os tipos, me encantei por muitos, mas nunca me deitei com nenhum antes do meu marido. Tive que me casar virgem, a pior besteira que uma moça pode fazer, mas naquele tempo era assim, havia essas tolices. Qual é o teu nome, minha jovem.

– Melissa. E senhora, como se chama?

– Melissa é o nome de minha neta, uma garota inteligente e muito bonita, fui eu que escolhi o nome dela. Me chamo Agnes.

– Muito prazer, senhora Agnes. Posso lhe ajudar com o batom?

– Imagine, minha querida, há mais de 65 anos que estou acostumada a passar isso aqui. E olha que comecei a usar batom aos 15 anos.

Novamente Agnes riu gostosamente. Guardou o batom na bolsa e sorriu para Melissa.

– Poderias me acompanhar para até a minha mesa, minha querida. Sabe como são os velhos, qualquer coisinha é motivo para se desequilibrar.

– Mas é claro que sim, será um prazer.

Saíram do toalete e seguiram por entre as mesas. Agnes se apoiava no braço direito da jovem, e as duas caminham devagar rindo e comentando sobre os benefícios da idade. Se aproximaram da mesa na qual Melissa estava com o jovem Falcão e este lhe sorriu. Agnes prontamente disse ao rapaz:

– Roubei sua namorada por alguns instantes, meu jovem. Sabe como é essa coisa de ser velho, precisamos e queremos sempre companhia, pelo menos eu sou assim.

Olhou para Melissa e disse:

– Acho que agora consigo ir sozinha, minha querida, pode se sentar com teu namorado.

– Nada disso, faço questão de acompanha-la até sua mesa. Sua companhia é muito agradável, senhora Agnes.

– Ah, muita gentileza de sua parte, minha querida. Confesso que sinto certa inveja de vocês, jovens casais, pois eu não tive um primeiro encontro digno de romances hollywoodianos. Meu velho era filho de um amigo do meu pai, nossos pais já havia decidido que iríamos nos casar e, assim, as duas famílias ficariam mais próximas dos negócios. Eu o conheci na sala de casa, imagina a frustação das minhas netas quando eu conto isso. E vocês, como se conheceram?

Neste momento os dois se olharam. O rapaz ficou confuso com a pergunta e Melissa respondeu prontamente:

– No teatro. Nos conhecemos no teatro, fui assistir sozinha a um espetáculo de dança e ele sentou ao meu lado, também sozinho. Puxou assunto comigo e não parou de falar um só minuto.

– Isso sim é um encontro digno das telonas. Quem me dera se o meu tivesse sido assim, um encontro para recordar com gosto, se bem que eu o teria mandado catar coquinhos na descida, pois odeio pessoas que falam durante qualquer apresentação, seja de dança, música …

Agnes foi interrompida por uma jovem, aparentava ter cerca de 13 anos, muito bonita e de olhos castanhos profundos e marcantes. O cabelo cacheado lhe marcava o rosto e o tom baixo e firme ganhou a atenção da senhora.

– Vovó, vamos. O vovô pediu para eu vir buscar a senhora.

– Minha querida, esta é Melissa. Minha mais nova amiga de toalete. Riu e se apoio no braço da neta. Se despediu do casal e caminhou vagarosamente pelo salão com a pequena garota.

Melissa olhou para o rapaz que lhe sorriu satisfeito. Ela se sentou e a salada foi servida. Ambos comeram em silêncio, trocaram algumas palavras para passar o tempo. Melissa ainda se lembrava da cena no banheiro e não se importava, pois bailarinas sempre sabem como se portar diante de uma sociedade opressora. Sorriu ao lembrar de Agnes e seu jeito doce de tratar as situações.

A mesa era próxima à janela e a vista do segundo andar era comum, mostrava a rua apinhada de gente que se deslumbrava com as decorações de natal da cidade. Todas as pessoas na rua não passavam de uma reprodução barata da “cartilha social” imposta pela mídia, elas eram, na verdade, apenas mais do mesmo.

Saíram do restaurante como dois amantes apaixonados, ela ostentando um sorriso forçado de satisfação e ele um sorriso sincero de vitória. Aquela relação nunca fora justa, afinal ela precisa do seu dinheiro para continuar a viver com o resto de dignidade que ainda lhe cabia, e ele não queria nada além de seu peito nu e sua profundidade. Seguiram pelas ruas, agora desertas, podiam sentir a brisa chegar fria em seus rostos, a pouca roupa fez Melissa tremer as pernas torneadas e elegantes e arrepiar os braços desnudos. O belo falcão, num gesto nobre, despiu seu blazer esportivo elegantemente tingido de azul royal e o colocou sobre seus ombros.

Certamente eles pareciam apenas mais um casal de amantes apaixonados passeando por entre as ruas e observando as decorações de natal, Melissa estava gostando dessa sensação, há muito que não tinha uma noite tão agradável como esta. O que será que os outros pensariam deles ao vê-los passeando lado a lado, ela usando o blazer dele, e ele a abraçando pela cintura em determinados momentos. Com toda certeza pensariam que eram apenas mais um casal procurando um lugar decente para se amaram na noite fria.

Amar, ela sabia o que era isso, e preferia não mais se entregar a tal sentimento devastador. Chegam devagar à porta do velho hotel, conhecido por seu interior luxuoso e o “esplêndido” turismo sexual. Entram e o rapaz pediu um quarto modesto e seguiram direto para o andar. Melissa já não pensava em mais nada, apenas que seria feliz e amada por mais uma noite, e ainda seria recompensada por sua performance. Alguns a recriminariam se descobrissem que uma respeitada bailarina se alugava por prazer, e necessidade também, mas a quem isso importaria. Ela estava ali por amor e interesse, aprendeu a se apaixonar brevemente por cada um que lhe honrara na cama.

A acomodação era composta por uma sala espaçosa com sofás e poltronas confortáveis, no quarto havia uma grande cama e escrivaninha acoplada a uma penteadeira, havia ainda um banheiro próximo à porta que era tão grande quanto o do restaurante. A vista do quarta era o que havia de mais encantador, deixou Melissa estarrecida por alguns instantes, àquela altura ela se sentia livre e totalmente encantada pela noite de céu escuro e iluminado pelas luzes abaixo, a brisa fria raspava a janela fechada. O belo falcão a despiu do blazer azul royal, beijou-lhe os ombros, passou-lhe a mão pela cintura pressionando-a contra seu sexo, a virou com delicadeza e a olhou profundamente nos olhos, ela sentira um arrepiou por todo seu corpo e teve que desviar o olhar, pois sabia que ele conseguia ver sua alma através dos seus olhos verdes. De cabeça baixa deixou que ele lhe despisse do vestido, com seu corpo à mostra, preservado apenas por sua lingerie, ela lhe lançou um olhar penetrante empurrou à parede, abriu os botões de sua camisa enquanto arranhava lentamente seu peitoral marcado, ainda mantendo os olhos presos em seu rosto, abriu a braguilha e colocou a mão sobre seu falo que se enrijecia na cueca. O tesão subira a cabeça do belo rapaz e ele não aguentou ao toque, puxou-a para si e a beijou, um beijo apaixonado que ela não recusara.

No fundo ela sabia que não deveria ter aceito o beijo, pois sempre ouvira de outras garotas nas ruas que o beijo é sinônimo de sentimento, mas agora era tarde demais para voltar no tempo e rejeitar o que ela também queria. Percebera, naquele exato momento, que desejava mais que sexo com aquele rapaz, queria fazer parte dele, da vida dele. O belo falcão lhe instigou todos os desejos, com o corpo frêmito e sua mente efêmera, regozijava de prazer e, pela primeira vez, compreendera que poderia ter amor com seus clientes. Quando terminaram, o rapaz se aconchegou em seu peito e acabou dormindo enquanto ela lhe afagava os cabelos, naquele momento se sentiram completos e também, de alguma forma, que foram feitos um para o outro.

O dia clareou e o rapaz já não estava no quarto, ela não se espantara com isso, afinal estava mais que acostumada em ser largada no quarto ao amanhecer com o dinheiro que lhe cabia solto em cima de alguma cômoda, ou mesmo ser enxotada do quarto após o sexo. Começou a se vestir, calçou seu salto agulha, ajeitou o cabelo e começou a procurar suas bijuterias quando a porta se abriu, ela se assustou com o barulho e pensou que era a camareira, alcançou a porta do quarto e se surpreendeu.

O rapaz estava seguindo para o quarto segurando algumas sacolas, com um sorriso encantador no rosto. Ela não havia percebido o quão belo era o rapaz. Aqueles olhos azuis, cabelos despenteados e barba por fazer pareciam ainda mais encantadores sob a luz da manhã. Ele sorriu para ela, havia comprado coisas para preparar um rápido e simples café da manhã para eles. Sorrindo como um príncipe, lhe perguntou se havia dormido bem, ela estava completamente envergonhada e só conseguiu acenar com a cabeça em resposta.

Ele começou a organizar as coisas sobre a escrivaninha e lhe fizera um gesto para o acompanhar no desjejum. Ela começou a sentir algo estranho, algo que vinha de dentro do peito, algo que a fazia se sentir novamente feliz, aceitou o convite e se sentou na beirada da cama. Se lembrou que durante a noite passada, no restaurante, o rapaz não lhe disseram seu nome, ela deixou esse pequeno detalhe de lado, pois não pretendia gerar intimidade com o cliente, mas agora, pela manhã e diante de tão belo gesto de carinho e interesse, ela se sentia mal por não saber seu nome. Resolveu lhe perguntar de forma singela e poética.

– O que posso eu dizer a este belo consorte que me oferece tão rico desjejum, e mal sou capaz de lembrar teu nome.

Com um sorriso sincero, o rapaz lhe respondeu, também em tom poético.

– Não se culpe por isso minha adorável senhora, pois também não sou capaz de lembrar o nome da mais bela dama que conheci em anos.

Sorriu e continuou de forma simples.

– Confesso que penei em inúmeras maneiras de lhe perguntar o teu nome, sem lhe ofender. Me chamo Peter, Peter Plantero, mas todo mundo me chama de Dee.

– Que nome lindo, Dee. Muito prazer, sou Arella.

– Arella? Confesso que me lembrava de algo como Melissa, talvez devo ter confundido com o nome daquela senhora.

Ligeiramente constrangida e percebendo que havia dito teu nome de verdade, ela tentou lhe explicar.

– Bem, o nome da senhora era Agnes. Melissa é o nome que uso para o meu, uhm, trabalho alternativo. Mas, me chamo Arella.

– Ah, verdade! Já havia me esquecido que você trabalhava com o corpo.

Dee continuou antes mesmo que Arella pudesse responder.

– Não quis parecer grosseiro, por favor, não me leve à mal. Comentei do corpo, pois notei que tens postura e elasticidade de uma bailarina, trabalhas com dança, certo?

Sorrindo, Arella amenizou a tensão que se formou no ar.

– Não se preocupe com isso, Dee. De certa forma trabalho com o corpo em todos os sentidos. Sou bailarina clássica, e tu, trabalhas com o quê?

– Bem, podemos dizer que eu trabalho, mas ao mesmo tempo não trabalho.

– Como assim, Dee?

– Meu pai trabalha bastante para todos nós. Eu desfruto um pouco da oportunidade que a vida me deu tendo um pai assim, mas sou voluntário em uma ONG.

Arella parou, com o pão ainda no ar, olhou para Peter com ternura e sorriu. A forma doce e sutil como ele contava sobre sua vida a cativava ainda mais, e agora ela se perguntava se realmente ele existia. Um rapaz belo e forte, com pai que lhe banca a vida, ainda assim se importava em ser voluntário em uma ONG.

– Voluntário em uma ONG? Que diferente! Isso me lembra quando eu ensinava para crianças carentes, através de um projeto social. Mas deixemos isso para lá, conte-me mais sobre essa ONG.

– Bem, nós cuidamos de crianças carentes por lá, incentivando que elas estudem e almejem ser alguém na vida, com um futuro promissor e cheio de oportunidades. Sou responsável pela recreação, na parte musical, claro.

– Ah, então quer dizer que o senhorito além de elegante, simpático, romântico e fofo, ainda é voluntário numa ONG, cuida de criança e és músico?

Inteiramente envergonhado, ele respondeu sem jeito:

– É, acho que você me colocou em um pedestal. Não sou tudo isso, senhorita, sou apenas mais um cara um frustrado com a vida e infância, que não deseja aos outros que passem por tudo aquilo que passei quando mais novo.

Consternada, Arella se apressou para desculpar-se.

– Desculpe-me, não quis lhe ofender, Dee.

Por um momento ambos ficaram em silêncio, então ele lhe tomou a mão e a beijou carinhosamente. Parou e a olhou nos olhos, então disse:

– Será que já não nos conhecemos de algum lugar? Talvez tenhamos realmente nos encontrado em algum teatro, mas garanto que não fiquei de conversinha com a senhorita, como disse à Agnes no restaurante.

– Ah, eu tinha que dizer algo, tu ficou parado, atônito com a pergunta. Improvisei, lembrei do primeiro encontro com um namoradinho que tive. Mas acho pouco provável que tenhamos nos vistos por aí, pois se eu o tivesse visto, me lembraria do teu sorriso e dos teus olhos azuis.

– Talvez eu já a tenha visto se apresentar pela cidade. Já se apresentou por aqui, não?

– Sim, por inúmeras vezes.

– Se apresentou em outros países, também?

– Sim, fiz uma série de apresentações pela Europa, Ásia, Estados Unidos e também Canadá.

– Tirando a Ásia, talvez possa ter lhe visto em algum desses outros.

– Acho pouco provável, mas é uma possibilidade.

Em tom irônico, Peter perguntou:

– Achas pouco provável eu assistir um espetáculo de ballet clássico, senhorita?

Arella não se intimidou pela ironia e a sustentou por mais um pouco.

– Longe de mim pensar isso, meu querido. Apenas digo que é pouco provável, pois tu, talvez, tenhas coisas mais importantes para fazer.

– Achas que sou um babaca, não é mesmo?

Livre da ironia, Arella realmente se importou com Peter.

– Porque eu acharia isso de ti?

Cabisbaixo, Peter respondeu.

– Não precisas achar, pois já me sinto um completo idiota. Sabe, nunca fui bom em conhecer pessoas, ainda mais garotas tão belas como tu. Mas, não deveria estar te dizendo isso, deixarei essas coisas tristes para conversar com o psicólogo. Me fale, por aqui, onde se apresenta?

Sem jeito, Arella respondeu.

– Bem, estou em temporada no Theatro Municipal.

– Isso é interessante. Quer dizer então que ainda tenho chance de prestigiá-la nos palcos?

– É provável que sim. Mas porquê todo esse interesse repentino pelo ballet?

– Achei mais elegante comentar sobre a sua paixão, do que sobre seu trabalho alternativo.

– Fico grata com teu gesto. Realmente prefiro conversar sobre o ballet.

– Imaginei. Bem, já está ficando tarde. Posso acompanha-la até alguma estação do metrô?

– Não precisa, obrigada.

– Tens certeza, Arella? As ruas não são seguras para uma senhorita tão bela e tão bem vestida. Será um prazer lhe acompanhar, assim terei mais tempo na companhia de alguém tão incrível como tu.

– Muito gentil de tua parte, Dee. Já que insistes, aceito a companhia.

Saíram do quarto, desceram juntos e ganharam as ruas. Como um casal de jovens amantes, passaram despercebidos por entre as pessoas. Logo chegaram à estação mais próxima e ambos entraram, ela descobrira que eles um dia moravam próximos. Ele fizera questão de acompanhá-la até a saída da estação e com um sorriso encantador se despediu dela, a ficou admirando enquanto seguia pelas passagens apinhadas de gente.

A mente de Arella estava completamente aturdida, o rapaz era simplesmente encantador e ela não conseguia compreender como ele pagava por sexo. Realmente ela considerou que ele pudesse ser um babaca, mas reconsiderou quando percebeu que ele tinha algum bloqueio em conhecer as pessoas, havia algo nele que lhe despertou o interesse. Ele tinha tudo que as mulheres procuravam, dinheiro, beleza e simpatia, ela simplesmente não conseguia compreender o porquê contratar uma garota para se deitar com ele.

Chegou à porta do prédio e subiu direto para o seu apartamento, rezando para que não houvesse ninguém no elevador. Sozinha no hall, se deu conta que não havia parado de pensar no Peter, desde que saíra do metrô. Se forçou a pensar em outra coisa, entrou em casa, despiu-se e foi para o banheiro, preparou a banheira e colocou sua playlist favorita para tocar. Dentro da banheira alcançou a carteira de cigarros que ganhou de sua tia-avó, era de prata e possuía as inicias que eram as mesmas que as dela, abriu e pegou seu cigarro de erva, o acendeu e ficou ali, observando a fumaça densa se formar enquanto o som das teclas do piano preenchiam seus ouvidos.