Dominando o Corpo

Me reencontrei na escuridão, comecei a compreender melhor seu ímpeto, descobri que aquela escuridão que estava à minha volta não me fazia mal, muito pelo contrário, era eu quem a prejudicava. A minha falta de coragem havia enegrecido tudo ao redor, deixando tudo morrer lentamente enquanto eu estava morto e desacreditado. Havia experimentado o Medo, seu sabor amargo e aquela sensação estranha que percorria por todo meu corpo, me fazia tremer e chorar, por dentro eu estava destruído, mas por fora eu mostrava a bela e reluzente face daquele castelo, um verdadeiro forte seguro e capaz de proteger qualquer um, mas na real não conseguia proteger a mim mesmo dentro dele.

Redescobri que EU também sou o senhor das trevas, e que temê-las é arrogância, aliás, sou o meu senhor e senhor do meu Corpo e da minha Mente. E, por falar em corpo, é chegado o momento deu ir conquistá-lo, sozinho e sem ajuda da Mente, hoje sei que ela nunca me abandonou, apenas adormeceu para que eu mesmo pudesse me encontrar na escuridão e compreender que ser parte dela está no meu plano evolutivo, e no meu adiantamento moral.  Eu mesmo que projetei aquelas sombras, era então a personagem principal daquele cenário brutal e esquecido, eu e somente eu. Levantei-me e notei que podia ser maior do que o Guardião da Torre Oeste, que estava ali nas masmorras velando meu sofrimento, me ergui e caminhei ereto por entre as sombras, sem projetar luz ou precisar dela para compreender o que se passava ao meu redor, olhei para as mãos e notei que havia algo escuro nelas, uma espécie de lama negra que traduzia o reflexo do que o medo fez em mim.

Emergi das masmorras e subi o mais alto que pude, vasculhando cada canto entre as sombras procurando pelo meu Corpo perdido, e foi no topo da torre que o encontrei, senhor de si e líder das suas próprias sombras. Ali compreendi que, talvez, não conseguiria vencê-lo sozinho, só então senti que não estava sozinho, minha Mente acordara e me saudara de forma bem particular. Eu era a luz e meu Corpo as trevas, a luz me traduzia o conhecimento, e as trevas me traduzia o misto da ignorância e do desconhecido, compreendi que ambos eram facetas de um mesmo princípio, um não conseguiria se manter firme e forte por mais tempo, e eu provavelmente voltaria a definhar se não os deixasse coexistirem igualmente em mim. Há pouco tempo definhei por excesso de sabedoria, hoje sei que necessito da ignorância para me manter sábio, e mais ainda do desconhecido para me manter crente em algo.

Ambos armados e preparados para uma batalha épica. Estranho ter que lutar contra você mesmo, seria como esmurrar um espelho, e partem os peões. Aprendi na estratégia do xadrez que sempre os peões vão na frente, e depois devem ser seguidos os cavalos e bispos, para então só ter a guerra vencida. E, antes deu chegar à conclusão de que ser um rei não vale de nada, pois seus poderes são limitados a caminhar uma casa por vez, e quem realmente faz toda a diferença no tabuleiro é a rainha, recordei-me de que sou eu senhor e senhora do meu ímpeto, logo sou luz e sombra, logo sou corpo e mente, então sou Eu o Corpo. Não faz o menor sentido ter que duelar comigo mesmo, tenho que dominá-lo, e foi pensando nisso que me preparei ou fui preparado inconscientemente para um dia dominá-lo. Se ele representa minha ignorância particular e as minhas próprias trevas desconhecidas, devo uni-lo à minha luz e conhecimento, me preparei e assim o fiz, aos poucos e com muito esforço fui sugando suas trevas, trazendo de volta aquilo que um dia abandonei por medo, trazendo de volta o meu sentido para a vida. Cara a cara com meu corpo, compreendi que sou Eu o duplo da morte, Eu e somente Eu possuo o duplo da visão, o dom da vida e da morte. Eu sou senhor do meu Corpo e senhora da minha Mente, sou luz e sou trevas, sou completo por me reencontrar e saber que bem e mal são conceitos humanos e que o que é bom para você, pode não ser bom para mim. Seu eu o meu senhora e a minha senhora.

Conquistando as alas

Juntos, num só espaço atemporal e sem forma humana, mas havíamos nos fundido de forma tão especial, que ficou impresso em mim a real razão da vida, tão cheio de luz, sabedoria, conhecimento, magia e poder. Minha Mente tão unida e comigo, que realmente conseguimos ser um único ser, de memória intrínseca, de ações unânimes, de voz triunfante, armados para a batalha de intelecto com as melhores armas, voz, coração e cérebro. Numa noite escura, saímos do nosso mundo particular, não havia nada do lado de fora da sala, apenas a habitual escuridão do castelo, e o frio que me congelava por inteiro, um frio que mistificava o medo e o desespero, confesso que tive vontade de voltar pra sala e me trancar ali por mais algum tempo, mas minha Mente me forçou a continuar, nos guiando pela escuridão do castelo com tanta luz nos circulando, eu mal podia enxergar adiante, apenas me movia por instinto.
Passamos noites e dias caminhando pela escuridão, vasculhando cada sala, cada ala, cada fresta, e nenhum sinal do Corpo. Varremos as alas Oeste, Norte e Sul, saudando todos os guardiões que se estabeleceram ali, compilamos a sabedoria e a força do Ar, da Terra e do Fogo, e agora rumávamos ao encontro do guardião da torre Leste, senhor da sabedoria e força da Água. O mais volátil dos elementos, ela que é o ventre vivo da mãe, ela que gera a vida e regenera tudo, ela que alimenta e nutre, ela quem cuida e protege, ela que leva também a destruição, ela que tem vida e vontade própria, ela que é viva e temperamental. Caminhamos e chegamos, à entrada da ala Leste, sombria e temerosa, pela primeira vez na vida tive medo de adentrá-la, pela primeira vez tive medo daquilo que poderia me aguardar no mais profundo da escuridão do meu ser, do meu castelo, da minha vida, o escuro me olhava e sentia seu ódio de ter sido deixado de lado por anos, respirei fundo e entrei, já não mais podia enxergar na escuridão, não sabia mais por onde caminhar, e tão pouco conseguia voltar agora, me senti perdido e sozinho por entre as sombras e névoa, me senti perdido por entre meu próprio mundo.
Caminhando sem rumo, sem destino e sem saber por onde pisar, cheguei a conclusão de que nada adiantava tentar fugir de mim mesmo, descobri que havia andado muito e não tinha saído do lugar, que apenas caminhava em círculos por entre as lápides que surgiam do chão, tentava olhar pelas altas janelas, e nada conseguia ver do lado de fora, então desci às masmorras. O pânico me assolava e eu não encontrava mais sentido para estar ali, não sabia o quê ou quem procurava, chorei pela ignorância, chorei por ter esquecido tudo, por estar perdido, por ter sido extremamente ignorante, chorei por estar vivo. Nunca, em toda minha vida, desejei tanto minha morte quanto agora, por entre as lágrimas implorei à deusa que me levasse de volta, que ceifasse o fio de vida sustentava meu corpo, me sentia incapaz, fraco e covarde por não conseguir acabar com aquela dor, covarde por não conseguir dar fim à minha vida, covarde por não querer voltar ao vale. Abandonei a vida e desisti de tudo, desisti do Sol e da Lua, do claro e do escuro, desisti da vida novamente e me definhei por entre as masmorras, sozinho, apenas com o frio e a umidade.
Após muito tempo sem me mover, já não sentia mais meu corpo, apenas comecei a ouvir uma goteira de água pingando incansável ao longe, a única coisa que consegui pensar foi que a água gerava a vida. Vida, o que é isso para alguém que têm o espírito morto? Relutante, me arrastei até à goteira, pude perceber que as gotas vinham das intermináveis lágrimas do guardião da torre de observação do oeste, tão alto, grande e imponente, suas lágrimas silenciosas escorriam dos seus olhos, passam pela lâmina da sua espada, e desaguava numa poça próxima ao seu pé direito. Pela primeira vez senti conforto ao ver alguém chorar, ao ver alguém ali, eu não passava de mais uma sombra para ele, algo morto e esquecido num canto escuro, bebi das tuas lágrimas límpidas e senti o gosto doce da sabedoria, pude sentir minhas cordas vocais vibrarem e então criei coragem para lhe perguntar porque ele chorava, ele me respondeu que chorava pela dor da perda do mestre daquele castelo, que agora começava a ficar em ruína.
Sentei, olhei para o meu reflexo distorcido na poça d’água, e me perguntei quem eu era e o que havia feito todo esse tempo no escuro, e não tive respostas. Aquelas lágrimas começaram a doer em mim, senti que falhei, e que essa falha afetou a todos que estavam ao meu redor. Resolvi então enxergar pela escuridão, e procurar sentido na vida ao meu redor, aprender novamente sobre tudo e comecei a sentir que aquela escuridão era minha, e eu que mandava nela, e que também a emanava.

Conquistando a Mente

É chegado o momento mais difícil dessa batalha, sair do topo da torre Norte, lugar que se tornou meu mais seguro refúgio, aqui há luz natural do dia e da noite, mas não há Sol nem Lua no céu cinza lá fora. Por tanto tempo convivi sozinho, que me coloco em voga se realmente ei de conseguir dominar a Mente e o Corpo, da mesma maneira que me tornei forte e aprendi muitas coisas, com toda certeza, eles também tiveram as mesmas oportunidades. Numa manhã gélida, vejo um ponto de luz fria no céu cinza, é aquele ponto que me inspira e me encoraja a sair da torre e descer às sombras frias e solitárias do meu castelos sitiado por dois insanos que brigam como cão e gato, Corpo à leste e Mente à oeste, tudo está calmo e ligeiramente estranho, essa calmaria alerta meus sentidos e me faz lembrar do lago escuro nas terras do castelo, a calmaria na orla serve apenas para disfarçar o agito misterioso do mar que se esconde atrás do horizonte limitado pelos meus encantos.

Caminho com cautela para não chamar atenção, mas já é tarde demais, pois percebo que agora sou a luz límpida e forte que emana do céu cinza, agora projeto as sombras que se escondem na escuridão, vejo tudo, sinto tudo, comando tudo, não há formas, não há medos, não há pânico, há apenas eu e somente eu. Um ser incompleto, sem Mente e sem Corpo, vagando destemido por entre as lacunas da minha mente destruída, procurando incansável a porta por onde a Mente possa ter fugido e, então, me deparo com ela, uma bela donzela de cabelos cacheados, tão dourados que se igualam ao vermelho que já não lembrava que existia, ela está só, mas não está sozinha. Sua sala é ampla, as pedras duras do chão frio deram espaço para a Terra, de algum lugar jorra água e formava um rio límpido e claro, plantas e árvores se estendem numa imensidão avassaladora e noto que não há paredes, não há limites, apenas a alta porta por onde passei. Sua roupa clara emana a luz que preenche todo o espaço, ela estava ali, me esperando chegar para saudar-me e dizer com um sorriso no rosto que estava me esperando há muito tempo, e que se instalou ali, pois sabia que a mãe iria me guiar em segurança até lá.

Estranho, mas eu me reencontrei, aquela mulher distinta e bela, cheia de si e senhora do seu mundo, Ela sou Eu. Nos reencontramos, um elo meu perdido no tempo, uma grã-sacerdotisa, reencontrando um grão-sacerdote. Por muito tempo me refugiei ali, junto à ela e aprendendo tudo que eu havia esquecido, e de repente, tudo fez sentido, acordei para a vida, havia cores nos meus olhos, pude ver a real brancura da minha pele escondida do Sol, pude então sentir o cheiro do vermelho, do verde, do amarelo, do azul, pude compreender que há muito mais em mim do que eu podia imaginar, e com o tempo, voltamos a ser um, e apenas um, apenas Eu. Passei a olhar meu reflexo, agora não mais turvo, nas águas do rio e vi minha real forma, indo além deste corpo mundano que aprisiona o tamanho do meu ser, mas me felicito por ter trazido à Terra parte da minha real aparência, meus vaidosos cachos avermelhados, e creio que com o tempo ei de me reencontrar ainda mais com a minha real aparência, não posso negar, sou tão feminino e cheio de vida, quanto o próprio ventre da mãe.

Descobrimento do meu ser, o duelo entre mente e corpo

O pior momento da minha edificação, a dualidade entre a mente e o corpo me deixou entorpecido, receoso e estranho, não conseguia caminhar por entre os mundos sem ter o medo de cair de cabeça num dos lados do meu castelo. Lados do meu castelo? E então percebi que meu castelo estava dividido, mente para um lado e corpo para outro, o pânico começou a me conquistar e dominar, pois não compreendia como um ser pode se dividir em três, Eu, minha Mente e meu Corpo, e não sabia realmente quem eu era, muito menos como era a senhora da minha mente e o senhor do meu corpo. A Mente queria expandir os horizontes e deixar a brisa entrar e varrer as paredes frias do castelo, o corpo queria manter a escuridão completa no castelo para reinar a mesma calma e segurança, e eu, sinceramente não sabia o que queria. Passamos a viver separados, a Mente desbravando o castelo, destemida e senhora de si, o Corpo tentando impedi-la a todo custo, e Eu fugi para o topo do castelo, tentando me manter seguro caso aqueles dois resolvessem se matar, e me levar junto como consequência de seus atos. Voltar ai vale, não é a melhor ideia, tenho certeza disto, mas acho que é por causa dele que hoje convivo muito bem sozinho e no escuro.

Com o tempo, e recorrendo à mãe Cerridwen, senhora da magia e do conhecimento, fui compreendendo todos os desígnios que ela havia me dado, compreendi que eu deveria comandar a Mente e o Corpo, a Mente deveria comandar o Corpo, e o Corpo deveria ser seu cervo fiel. O tempo foi passando, minha memória ancestral voltando, e fui compreendendo que sou Eu o senhor do meu castelo, Eu decido como será seu futuro, o meu futuro. E então acordei para a realidade, há muito havia me perdido por entre as brumas frias que envolviam meu castelo e ver o Sol agora já era impossível, realmente estava perdido no meu mundo, sem ter como sair dele, estava longe e distante de tudo e todos que eu conheci na realidade mundana, aquele que deviam ser meus tutores não mais estavam presentes, e eu estava sem rumo, vivendo no mundo dos vivos como um zombie, apenas agindo por osmose. Eis que decido colocar ordem no meu mundo, para poder ressurgir forte e firme das sombras e cinzas na qual estava vivendo durante anos, comecei lembrando como era usar meu poder: o auto controle.

Devo me controlar, pois sei que não há motivo para pânico e o medo é apenas uma sombra distorcida de uma realidade não conhecida, e não ei de me calar e petrificar diante do desconhecido, afinal vivi muitos anos longe da batalha, e meu passado ancestral é marcado por muita magia, batalhas, e vitórias. Controle, significa que devo assumir o comando e vencer essa batalha interior, pacificando os duelos entre a mente e o corpo, tendo a certeza de que esta tarefa não será fácil, me tranquei na torre Norte e comecei a acender as chamas da memória, lembrar dos ensinamentos e dos aprendizados, aprender novamente a usar a magia para construir. Por osmose, usei minha magia para me refugiar num mundo meu, e só meu, lancei feitiços e encantamentos no meu castelos e o deixei intransponível e totalmente seguro, tão seguro que agora eu mesmo não conseguia sair dele, uma grande ironia do destino, sou prisioneiro da minha própria magia. Agora descobri minha força, sei do que sou capaz e sei que posso desfazer qualquer encanto, posso transformar a energia e neutralizá-la, mas ainda preciso de muito treino e disciplina, durante anos meu inconsciente me dominou e me trancou no fundo da minha mente, mas agora que ela está solta e rebelde, eu conseguiu fugir e me dominar. Domínio, agora sei que Eu mando nos meus atos, não serei mais controlado por brigas fúteis da minha Mente e do meu Corpo, tenho que dominá-los.

Sobre as sombras …

Eis que pela primeira vez tu poderás ver uma pequena sala do meu castelo de pedras, sombrio e gelado, que ainda existe em alguma parte da edificação do meu ser. Tal castelo hoje está parcialmente em ruínas, não deixo que ninguém caminhe pela ala Leste, pois pode se perder entre os labirintos da minha mente efêmera e insana, por entre as pedras, salas, sombras e, talvez, morrer congelado agonizando em algum canto esquecido. Um dia deixei que os ventos do Sul entrassem, os deixei varrer a escuridão fria para longe, e, só então que do topo da torre Norte, vi o Sol frio ao longe, frio e tão forte quanto a escuridão que um dia eu nutri, e descobri que viver a morte é uma experiência incrível. Sim, vivi a morte, pois estava morto por dentro.

A escuridão me cercava por completo, e hoje caminho por ela sem medos e sem receio, pois eu também sou a escuridão. Como dizia o sábio mago meia-noite, “luzes e sombras são facetas de um mesmo princípio“, por isso, mantenho intacta a parte Leste do meu castelo, não movi uma pedra depois que os ventos do Sul a destruíram, pois sei que essa sombra faz parte do meu ser, do meu caráter e da minha construção moral. Oras, sou senhor e senhora do meu corpo e mente, sou senhor e senhora da minha magia e meu poder, sou senhor e senhora das luzes e das sombras, definitivamente sou senhor da Luz, e senhora das Sombras.

Por muito tempo vivi na escuridão, sem sentir o calor do Sol, nutrindo apenas os desejos mais nefastos da minha mente, mas mesmo assim seguindo a risca a maior lei universal, a lei Tríplice. Caminhava sozinho por entre as passagens do meu castelo, seguro entre suas paredes de pedras frias, ouvindo meus passos ecoando ao longo do caminho, queria ter alguém ali para compartilhar comigo um sorriso, um momento único, uma troca de carícias e carinho, queria ter alguém que não tivesse medo da minha escuridão provocadora, de tanto tempo no escuro, esqueci como era forte a luz da chama de uma vela, meus olhos se acostumaram com o escuro, meus pés se encontravam em qualquer caminho. Não ousava eu sair da fortaleza do castelo, pois sabia que existiam seres estranhos e perigosos porta afora. Sempre quis caminhar por entre as pedras do jardim envolto numa eterna neblina, caminhar por entre as grandes árvores do bosque perto do lago, que sempre foi denso e me trouxe pânico, pois sabia que suas águas eram calmas à beira da praia, mas sua imensidão desaguava no mar revolto.

Passei tantos anos assim, que alguma coisa de bom havia de surgir desse tempo sozinho no escuro, nunca estive perdido dentro do meu castelo, mas sabia que estava prestes a perder minha consciência em breve, deveria fazer algo para mudar essa panorama, algo que me resgatasse de mim mesmo. As minhas sombras nunca me imbuíram medo, muito pelo contrário, elas sempre me fortaleceram, mas eu estava começando a me perder, perder a noção da realidade, perder o vínculo com o mundo externo e me trancar para sempre no meu castelo frio, sem poder sair para o jardim, por receio das forças estranhas que se encontravam ali. Passei todos os dias a me olhar no espelho, no escuro não podia ver a minha forma mundana, mas podia ver minha força, um roxo cintilante, frio e sóbrio, era refletido sobre mim, algo que me encantava e eis que passei a me perguntar “quem sou eu“, “o que quero para mim“, “o que estou fazendo aqui“, “o que me move por entre as sombras“, “porque tudo isso“. Enquanto isso, no mundo exterior, as pessoas me viam como eu me projetava à elas, firme, sóbrio, distante, sábio e sombrio. Era divertido ver estampado no rosto das pessoas o misto de medo e respeito, quando minha voz soava como trovão no ar, eu tinha o respeito de todos e sua atenção também, com essa edificação de postura, hoje sou respeitado e minha voz tem força moral entre seus ouvidos surdos, graças às sombras que me cercaram.

De volta ao escuro do meu castelo, sentado diante do espelho, olhei novamente para mim e me questionei mais uma vez, até que tudo começara a fazer sentido, as vozes cessaram, as visões pararam e tudo ficou calmo e silencioso, não estava mais dentre os vivos, não estava mais dentro de mim mesmo, e descobri que estava tendo ajuda para me encontrar novamente dentro da escuridão. A deusa me resgatou de mim mesmo, me mostrou as cores do mundo em seu ventre, me acendeu a memória do meu ser, me fez compreender meu espírito, e me disse em alto e bom som que “tu só poderás ser ajudado, quando procurar ajuda“. Despertei. Com medo, frio, pânico e desespero, e então meu ser se dividiu, mente e corpo separados, a mente compreendia tudo e sabia que aquilo fora bom e que a Deusa havia vindo despertá-la, o corpo sentia o medo da nova experiência, da nova energia, da nova sensação, tinha medo pois havia sido carregado para fora da sua fortaleza de pedra e sombras. A dualidade começou a se fazer presente em mim, mente e corpo começaram duelar e se exprimirem de forma individualista e coletiva, esta fora a pior parte, o descobrimento do meu ser.